Vamos falar de GREVE: uma breve conversa e muitas perguntas

por Giselle Bertaggia

Hoje, dia 28/04/2017, inauguramos esse sítio e é o mesmo dia que acontece uma Greve Geral no Brasil. A última greve geral foi realizada em 1917 e foi iniciada em São Paulo. Esse movimento que ocorre hoje entrará para História como um movimento de resistência à Reforma da Previdência e à Reforma Trabalhista, principalmente. Foram divulgados dados que mostram que mais de 35 milhões de pessoas aderiram à greve de hoje.

A greve, como instrumento de formação e de luta, ainda é muito contestada por trabalhadoras e trabalhadores, além, claro, do empresariado e governos. Vamos explicar abaixo porque a greve é importante, não apenas porque em momentos históricos decisivos de conquistas ela sempre esteve presente, mas como instrumento de formação do cidadão inserido numa sociedade capitalista desigual e como movimento esclarecedor no sentido de evidenciar as diferenças de interesses de classes, além do entendimento do uso da violência por parte da polícia militarizada que herda da ditadura militar, proveniente do Golpe de 1964, uma lógica repressora que atinge a classe mais baixa e seus movimentos sociais.

Num dia de greve como hoje, o que devemos pensar? Ou não devemos pensar em nada? Apenas devemos acreditar o que a grande mídia nos informa ou devemos procurar saber o porquê da greve?

Logicamente muitas pessoas sofrem transtornos com as greves de vários serviços, assim como bancos e transportes públicos. Mas será que é justo, você, fazendo parte de uma sociedade, ignorar isso apenas reclamando?

No sistema Capitalista neoliberal, o individualismo e saídas individuais e não coletivas para as questões sociais são apresentadas como forma de libertação do indivíduo, onde acredita-se que é possível alcançar o patamar que se quiser dentro de uma sociedade. Mas será que somos tão livres assim? Pensar apenas em si mesmo ou apenas nas próprias condições faz parte de um pensamento inerente ao modo de produção capitalista. Nele, as pessoas são objetificadas, tornando-se também uma mercadoria (vamos ter mais artigos falando sobre essa questão). Sim, você é uma mercadoria nesse sistema, o qual centra o lucro e a concentração de renda e não o ser humano e o bem-estar social para todos. Segundo Marx, “não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência”. Assim, podemos começar a refletir que o modo como pensamos foi moldado por um sistema que não é justo e que é gerador de desigualdades cada vez mais acentuadas. Como podemos ser justos? Aliás, o que é ser justo? É justo que um grupo de pessoas faça greve para não perder seus direitos “prejudicando” outras pessoas que não concordam ou não sabem do que se trata? Bom, pela Constituição de 1988, sim, existe o direito à greve. Mas não é bem assim que acontece. Geralmente, as pessoas que se opõem às medidas que favorecem o Sistema, além de sofrerem repressão policial nas manifestações, são julgadas pelas outras pessoas, na maior parte, trabalhadores também, e depois são perseguidas moralmente por colegas de trabalho, familiares e outros por sua posição. Hoje, com as redes sociais, o ódio não fica mais tão latente.

A Greve é importante e necessária para que a democracia funcione dentro desse sistema, o qual privilegia os detentores de poder. Mesmo que esse(s) dia(s) seja(m) conturbado(s), é um “mal” necessário. Além disso, o mais importante de uma greve é o debate e o esclarecimento da sociedade sobre o que está acontecendo, o que está por vir e como as suas vidas serão afetadas pelas medidas que estão sendo tomadas. Greve é formação de ideias. Você pode até ficar contra depois de tudo esclarecido, mas deveria se dar o direito de resolver coletivamente as questões que são coletivas, pois as mesmas afetarão a todos que não fazem parte de uma minoria privilegiada.

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Imagem da Greve Geral de 21/04/2017. De http://www.huffpostbrasil.com

Mas perguntamos: não existe outra maneira de fazer isso sem “atrapalhar” a vida dos outros? Bom, podemos pensar no tema transporte público. Você pega transporte público todo dia, lotado, com gente mal-educada, se estressa, etc? Aí você pensa na saída individual: vou comprar um carro ou uma moto, assim eu chego mais rápido ou pelo menos é confortável, tem ar condicionado e aquecedor, além de uma boa música rolando. Bom, você conseguiu, foi lá e comprou um carro. Você pensou que engrossou o trânsito juntamente com outros e atrapalhou a vida de quem depende do transporte público? Sim, você, por menor impacto que tenha, atrapalha a vida de alguém tendo um carro. Ora, não seria melhor encontrar uma solução que beneficiasse a todos, como um transporte público de qualidade? Nem todos podem comprar um carro e se pudessem, a saída individual se tornaria um transtorno também. A Greve é um instrumento das massas para alcançar um bem comum, que é votada em assembleias de categorias ou organizações populares. E esse benefício atingirá você, como cidadão, a menos que você esteja do outro lado, o lado dos poderosos endinheirados. Aí entra um tema que trataremos ainda, que é a luta de classes. Sim, é necessário que você saiba de qual lado você está: da maioria esmagadora explorada que produz as riquezas desse país e sustenta uma pirâmide desigual ou faz parte de uma pequena parcela privilegiada.

Se estão ocorrendo movimentos, manifestações e greves, dê um crédito, não pense apenas no singular. Raciocine sobre o que é melhor para que uma sociedade funcione de forma minimamente digna. Se puder se envolver e pedir explicações para quem está participando da greve é muito melhor que sintonizar num canal cujo dono é um bilionário que se beneficiará das medidas governamentais ilegítimas. Esses só estão interessados em ganhar mais dinheiro e não pretendem melhorar a condição do país. Aliás, a maioria nem mora aqui no Brasil.

A repressão da polícia militarizada em movimentos populares é mais um indicativo de que a mesma está a serviço de uma minoria privilegiada. Não faz sentido? Será que a polícia garante mesmo a segurança dos cidadãos? Qual seu efetivo papel na sociedade?

Essas questões todas colocadas serão discutidas em vários outros artigos. Aqui não estamos interessadas em encontrar respostas fáceis para questões complexas. O intuito é debatê-las e o intuito desse texto cheio de perguntas sem respostas é a reflexão.

A Greve de hoje, onde várias frentes progressistas de esquerda se unem e milhares trabalhadores de várias cidades do país pararam suas atividades não ocorre à toa. Ocorre, pois, tramita no Senado um projeto de Reforma Trabalhista que altera mais de cem pontos da CLT, que garantem o mínimo de dignidade no trabalho quando aplicadas corretamente. Outra questão grave é a Reforma da Previdência, que acaba definitivamente com parte da seguridade social do país. Esses pontos afetam quem? Será que o “transtorno” de hoje não vale a pena? Coloquemos na balança.

Quando acontece greve é porque não houve debate com a sociedade, referendos, plebiscitos. A greve e a mídia alternativa são únicos meios de nos informarmos sobre as verdadeiras faces desses projetos e por quem eles estão sendo solicitados e financiados. Porque toda informação veiculada por quem tem interesses nessas medidas não mostrarão o ônus para a sociedade, só enfatizarão progressos econômicos que não ocorrerão, de fato, tendo em vista análises por pessoas qualificadas e sem certos interesses e tomando como exemplos outros países que tiveram medidas muito parecidas.

Se um governo compra votos de deputados, senadores, coloca propaganda milionária com dinheiro público na grande mídia para tentar “esclarecer” essas medidas, há de se desconfiar pelo menos por um minuto que algo bom não virá. Medidas essas que não estão sendo aprovadas democraticamente, pois o governo atual nem eleito foi, é um governo ilegítimo, como já sabemos.

Nos resta saber se queremos pagar por essa crise e quem ganha com ela. Enquanto temos nossos direitos cortados para “tirar o país do buraco”, os bancos lucram bilhões. Há algo errado, não?

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