O manual de Marighella: uma lição para Esquerda na atualidade

por Almir Felitte no Justificando.

“A crise estrutural crônica característica do Brasil de hoje, e sua resultante instabilidade política, são as razões pelo abrupto surgimento da guerra revolucionária no país. A guerra revolucionária se manifesta na forma da guerra de guerrilha urbana, guerra psicológica ou guerra guerrilheira rural. A guerra guerrilheira urbana ou a guerra psicológica na cidade depende da guerrilha urbana.”

É assim, sem rodeios, que Carlos Marighella inicia o “Minimanual do Guerrilheiro Urbano”. Prático demais para ser chamado de teórico, real demais para dizer-se utópico, didaticamente, o manual do inimigo número um da ditadura brasileira conquistou o mundo, chegando a ser traduzido para várias línguas.

Mas a vida política de Marighella se iniciou muito antes da publicação do livro em 1969. Militante do PCB desde os anos 30, teve diversas passagens pela prisão por perseguições políticas que sofria desde a Era Vargas e viveria por mais de duas décadas na clandestinidade, fundando a Ação Libertadora Nacional na luta contra a ditadura militar, que o levou à morte em 4 de novembro de 1969.

Para além do simbolismo e dos avanços reais na defesa dos direitos dos trabalhadores, Marighella deixou seu legado materializado com a publicação do Manual. Embora escrito há 48 anos em um momento de radicalização da luta, diante do atual cenário de crise política, de desorganização das esquerdas e de amplo retrocesso social que vive o país, o livro contém valiosas lições que podem ser absorvidas pelos atuais movimentos progressistas brasileiros.

A primeira delas é, talvez, a clara delimitação que Marighella faz entre o regime de opressão e a força que luta contra o mesmo. Na obra, o guerrilheiro foge de qualquer personificação da luta, evitando criar tanto um salvador da pátria ao seu lado quanto um grande vilão do outro. Seus ataques são, claramente, direcionados ao sistema capitalista e seus principais pilares institucionais: os bancos (“o sistema nervoso do capitalismo”), grandes corporações estrangeiras, empresas de comunicação, o Estado e seu braço armado.

Marighella acerta ao reconhecer o caráter institucional do capitalismo, talvez por perceber que a simples derrubada de personalidades seja insuficiente, vez que ídolos podem ser facilmente repostos e usados como bodes expiatórios pelo próprio sistema que os criou. Ainda mais na atualidade, em que campanhas marqueteiras garantem ascensões meteóricas de novas caras na política do país tão logo o público se canse das antigas.

Ao rejeitar a personificação do inimigo, o guerrilheiro abriu caminho para a percepção dos reais problemas a serem combatidos, ainda que tal luta seja travada entre pessoas reais. Em suas palavra:

“A guerrilha urbana deve pôr em perigo a economia do país, particularmente seus aspectos financeiros e econômicos, assim como as redes comerciais domésticas e estrangeiras, suas mudanças nos sistemas bancários, seu sistema de coleta de impostos, e outros.”

Do mesmo modo, sua obra em momento algum materializa a figura do guerrilheiro em um indivíduo. Ao contrário, o foco de Marighella se dá sempre na ação coletiva e no poder popular. Ao final da obra, por exemplo, ele coloca no centro da luta anticapitalista os trabalhadores urbanos, os camponeses, os estudantes, os intelectuais, os clérigos e as mulheres. Uma visão extremamente coerente que demonstra que não se pode lutar por justiça sem consciência de classe e que a coletividade não necessita de um movimento messiânico para a sua própria libertação.

Aliás, é nesse sentido que Marighella defende o que ele chama de “grupos de fogo”. Apesar de reconhecer a existência de um “comando estratégico”, ele encoraja, a todo momento, a iniciativa livre de tais grupos, vez que é essa ação difusa que leva o governo ao desgaste e à postura defensiva. Este é, talvez, o ponto estrutural em que os movimentos de hoje mais divergem em relação ao que propõe o Manual. O que se vê, atualmente, é uma multidão de pessoas descontentes com o governo aguardando a próxima ordem de greve ou manifestação de um dos movimentos sociais de destaque no cenário político.

Além dessa “burocratização” da luta, a esquerda tem, também, adotado medidas que priorizam mais o simbolismo do que o real desgaste do sistema que se quer derrubar. Paralisações curtas com hora certa para acabar e manifestações com data e local pré-agendados podem render algumas matérias na grande mídia e até mesmo algumas fotos bonitas nas capas dos jornais nas manhãs seguintes, mas não desestabilizam o poder.

Somente ações descentralizadas têm a real capacidade de criar um ambiente em que a população possa igualar suas forças com a do Estado e das elites. Greves e piquetes chamados por sindicatos sem esperar o aval de centrais ou travamentos diários em grandes vias dão muito mais poder de barganha ao povo do que qualquer manifestação de milhões aos gritos de palavras de ordem, que só demonstraram efetividade na história brasileira quando tiveram interesses em comum com o status quo.

Outro ponto importante que a luta atual deve rememorar através do manual é o papel do trabalhador rural. Para Marighella, a guerrilha urbana tinha a função de “desgastar, desmoralizar e distrair as forças inimigas, permitindo o desenvolvimento e sobrevivência da guerrilha rural que está destinada a um papel decisivo na guerra revolucionária”. É certo que o manual fora escrito em uma época em que a população urbana apenas começava a ultrapassar a rural, situação muito diversa da atual, onde o número de camponeses no país é de aproximadamente 15% da população, segundo o Censo 2010.

Mas, para além disso, Marighella estava consciente de que apenas a população rural teria as condições de espaço e mobilização suficientes para a derrubada de um regime. Ele afirma que não se pode “interromper a luta guerrilheira na cidade enquanto que a guerra rural não tenha estourado” e que a resistência na cidade deve aumentar gradualmente, mantendo o foco do governo na área urbana, permitindo que “aumente a rebelião na costa como também no interior do país”.

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Atualmente, a situação é de desprestígio para a luta campesina, que viu seu principal movimento, o MST, perder protagonismo enquanto a bancada ruralista e o agronegócio se fortaleciam no Congresso. Do mesmo modo a luta indígena, massacrada tanto na ditadura militar quanto na atual “democracia”. É essencial que a demarcação de terras indígenas e a reforma agrária retomem seu lugar na pauta das esquerdas brasileiras.

Além disso, em sua obra, Marighella faz questão de pontuar as corporações norte-americanas como pilares do sistema capitalista brasileiro que devem ser atacados. Tal tema, atualmente, não pode ser tratado como paranoia dos tempos de Guerra Fria. Isso porque, desde a crise de 2008, os EUA intensificaram sua tática de interferência na política global de modo a manter sua posição hegemônica. Ucrânia, Egito, Síria, Iraque, Líbia, Honduras e Paraguai, entre outros países, são exemplos de nações que enfrentam grande instabilidade política e conflitos com forte suspeita de interferência do governo e do capital americano.

No Brasil, a situação não é diferente. Segundo vazamentos do Wikileaks, documentos de 2009 demonstravam o interesse de gigantes do petróleo como Exxon e Chevron na mudança da legislação sobre a exploração do pré-sal, visando a acabar com o domínio da Petrobras nessa atividade através de alianças com políticos como José Serra e organizações como a FIESP e a CNI. Não por coincidência, logo após o impeachment de Dilma, a Câmara aprovou o projeto de autoria de Serra que abria a exploração do pré-sal para empresas estrangeiras.

A participação do Departamento de Justiça dos EUA na delação do grupo JBS no Brasil, do mesmo modo, deve levantar suspeitas, ainda mais pelo fato de que a empresa passou por um processo de internacionalização, às custas de dinheiro público brasileiro, para enfim transferir-se de vez para terras americanas.

Assim, apesar de ter sido escrito em um contexto de luta violenta, ao menos por enquanto, distante do cenário atual, o Manual escrito por Marighella deixa algumas lições e conceitos que podem facilmente ser aplicados a atual situação brasileira. A luta despersonificada e com ênfase no coletivo, a descentralização e o pragmatismo das ações, a recuperação de prestígio das lutas rurais e a consciência de que a política brasileira se insere em um contexto maior de imperialismo capitalista global são apenas alguns pontos que devem ser relembrados para que as esquerdas se reorganizem no país. Por fim, caso essa mobilização tenha êxito e, por milagre, a esquerda comece a virar esse jogo, deixo aqui uma última lição de Marighella:

“Quando veem que os militares e a ditadura estão a ponto do abismo, e temendo as consequências de uma guerra civil que já está a caminho, os pacificadores (que sempre se encontram dentro das classes governantes), e os oportunistas de ala direita, amigos da luta sem violência, se unem e começam a circular rumores detrás ‘das cortinas’, pedindo ao carrasco eleições, ‘redemocratização’, reformas constitucionais, e outras bobagens desenhadas para confundir as massas e fazê-las parar a rebelião revolucionária nas cidades e nas áreas rurais do país. Mas, observando os revolucionários, as pessoas agora entendem que seria uma farsa elas votarem em eleições que tem como único objetivo, garantir a continuação da ditadura militar e cobrir os crimes do estado.”

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

 

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