A luta das mulheres é ordem do dia!

por Giselle Bertaggia

Desde nossa infância aprendemos a imitar. Sejam atitudes, gestos, palavras. Dos pais ou cuidadores, dos amigos ou colegas de escola. Há aqueles (provavelmente você também) que foram educados pelos programas televisivos. As crianças de hoje dispõem de redes sociais em tablets e celulares (aquelas que tem acesso a esse tipo de recurso, claro). Isto é, tudo que acontece ao nosso redor nos forma e formará. Bem como o meio de produção em que vivemos.

A luta das mulheres se faz necessária a cada dia, ainda mais depois de nos depararmos com exemplos como o da reportagem que reproduziremos abaixo. Até quando, nós, mulheres, teremos que passar por isso? Nós podemos nos sentir descartáveis caso não tenhamos conhecimento necessário para enfrentar com dura luta a misoginia. Porque, nós, mulheres, temos que estar dentro dos padrões da sociedade patriarcal opressora? Porque temos que ser brancas, magras e sem filhos? Porque nos tornamos “descartáveis” para sociedade depois de termos filhos e envelhecermos? No trabalho, nos relacionamentos amorosos e até na esfera familiar ainda estão evidentes preconceitos contra mulheres maduras e solteiras, mães solteiras e que não estejam dentro dos padrões impostos pela sociedade ensinada pela mídia.

Desde nossa infância aprendemos a imitar. Sejam atitudes, gestos, palavras. Dos pais ou cuidadores, dos amigos ou colegas de escola. Há aqueles (provavelmente você também) que foram educados pelos programas televisivos. As crianças de hoje dispõem de redes sociais em tablets e celulares (aquelas que tem acesso a esse tipo de recurso, claro). Isto é, tudo que acontece ao nosso redor nos forma e formará. Bem como o meio de produção em que vivemos.

O que estamos querendo dizer é que, mesmo sem perceber, há certos valores enraizados em nós e não imaginamos como isso influencia nossas vidas e as dos indivíduos próximos a nós. Por mais que essa afirmação pareça banal, o fato é que essas raízes, muitas vezes, nos impelem a agir de certas maneiras, ter certos gostos e, de uma maneira mais geral, produzem um modus operandi para vivermos. Provavelmente se você der uma roupa azul para uma bebê menina, os pais dela irão estranhar. Esse exemplo talvez pareça superficial, mas serve para entendermos que, ao escolher um presente para uma menina de 6 meses, iremos, provavelmente, escolher uma roupa considerada pela sociedade como “roupa de menina”, excluindo as roupas azuis. Assim, dentro dessa concepção, dar carrinhos para uma menina ou uma boneca para um menino pode ser uma extrema afronta aos padrões estabelecidos.

O aprofundamento desse discurso (talvez já suplantado por alguns) é a questão dos padrões. Os padrões enraizados acabam por ditar nossa maneira de vestir, agir e falar dependendo das referências que tivemos acesso desde a infância. Algumas exigências feitas pela sociedade são frutos desses padrões e, não necessariamente, são as melhores opções para vida e de se colocar no mundo e se inserir na sociedade. Talvez sejam essas raízes que nos prendam a certos valores (muitas vezes opressores) no sentido de se internalizar uma pressão e torná-la natural e correta.

As séries, revistas, comentários de colegas de trabalho, filmes hollywoodianos (e outros, claro) aprofundam esses padrões machistas e misóginos e fazem com que uma das mais lidas, num site que tem um grande público, seja uma matéria como essa (e isso se repete todos os dias):

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Uma notícia totalmente sem propósitos a não ser reforçar padrões de beleza, pois de informação e conhecimento não tem nada.

Uma série aclamada como Game Of Thrones se diz feminista, por retratar como a mulher era explorada sexualmente, colocando personagens femininas fortes, mas as retrata sempre magras e depiladas (naquela época!) totalmente despidas, fazendo-se o que sabe-se fazer bem nos estúdios onde roteiros escritos descrevem personagens como “a gostosa”, “a namorada de fulano”: vender! As próprias atrizes de GOT admitiram que serão lembradas pelos seios e bundas, mas não pela atuação. Obviamente o público masculino é o consumidor mais assíduo desse tipo de série. Esse foi só um exemplo e é só a ponta do iceberg.

A luta feminista que busca direitos iguais no mercado de trabalho e nas tarefas domésticas é totalmente válida e necessária, mas não esqueçamos que o machismo e a padronização está presente a cada minuto da vida de uma mulher: seja quando ela dirige, seja quando abre uma página de internet, seja quando assiste um filme, seja quando vê uma propaganda de lingerie ou de cerveja. Enquanto formos consideradas mercadorias não teremos vencido essa luta.

Abaixo segue uma reportagem extraída da Revista Crescer, onde, no aplicativo Tinder, uma mulher sofreu vários ataques por ser mãe solteira e, portanto, considerada fora dos padrões.

Experiência de mãe solo no Tinder revolta redes sociais

Por Crescer – 15/05/2017 18h14 – atualizada em 17/05/2017 17h58

Entre as diversas homenagens que pipocaram na internet no último domingo (14), um texto chamou a atenção e foi compartilhado por milhares de pessoas no Facebook. Trata-se de um relato, atribuído a uma professora, de 27 anos, chamada Fernanda Teixeira. O perfil dela teria sido deletado da rede social depois que o post recebeu diversos comentários machistas. No texto, Fernanda conta o que aconteceu quando entrou no aplicativo de paquera Tinder e criou um perfil, com sua foto e descrição. Entre as informações, ela dizia que era mãe. Fernanda, então, reuniu algumas das respostas que recebeu dos homens que se interessaram a princípio. O resultado revoltou a web. Confira o post na íntegra:


(minha foto mais bonita)
Fernanda, 27 anos
Mãe
Professora
Militante
Feminista
Amor à culinária, literatura e aos amigos
Ódio ao capital e aos de coração raso.

Essa é a minha descrição num experimento social, no meu perfil do Tinder.
Depois de conversar mais uma vez com uma amiga sobre a relativização afetiva que as mulheres sofrem e como é isso pós maternidade, ela lembrou de um post que fiz um tempo atras, contando dos perfis no Tinder. Homens com fotos dos filhos, mulheres, nunca. Esconder a maternidade é necessidade. Ela, socióloga, propôs que reativássemos meu perfil e fizemos essas alterações. Foi uma semana forte. não fez bem pro meu ego, mesmo.

83 matchs masculinos. Homens entre 24 e 34 anos. Alguns (re)machs – praticamente os únicos que não me fizeram mal ao ler as mensagens recebidas (nem todos, também). todos homens que eu realmente me interessaria pela aparência física e/ou descrição e interesses em comum.

TOP 10 das bostejadas:
1
*Raul – 27 anos:
-Oi gata
-Oi. tudo bem?
-Melhor agora.
– ><
-Que bom que você avisa que tem filho.
-É? Por que?
-Assim facilita e a gente não tem surpresa.
-Como assim?
-ah gata
não se apaixona nem se desiludi
– como assim?
– vc é mãe
já sei q n rola nd sério

2
*Felipe – 31 anos:
-Tu é mãe?
ainda amamenta? ❤
– Oi. Tudo bem? Não mais, por que?
– Nada não.
(combinação desfeita, por ele)

3
*Lucas – 28 anos:
-…
-então o seu filho está onde agora?
– Em casa, comigo. por que?
-Nossa.
Você é bem feminazi esquerdista mesmo.
coitada da criança com uma mãe p*ta dessas que fica procurando macho.

4
*Lucas – 24 anos:
– …
– Sou mais novo que vc
-Sim. 3 anos. Isso é um problema grande?
-n, n. é q vc é mãe, e eu procuro uma namorada
-E?…
-E que daí n dá, né
-Por que? Sua mãe nunca namorou?
-N fala da minha mãe
vadia
(combinação desfeita, por ele)

5
*Markus – 25 anos
-vc tem com quem deixar a criança? n sou chegado, mas achei vc gata.
-oi? tu n é chegado em que?
– Filho dos outros kkk
– Tu tem a foto com uma criança!!!!
– É meu afilhado.
-Pra chamar mulher?
– Siiim. da certo. Com vcs tbm?
(combinação desfeita por mim, porque não tive mais estomago)

6
*Marcos – 27 anos
-…
-Mas priorizei outras coisas na minha vida
-Como assim? temos a mesma idade e tu tbm é pai
-sou pq minha ex quis. acho q ela e vc n são iguais
-Como assim?
– Vim morar no sul pra fugir dela
– E do teu filho?
-tbm. ela engravidou de gosto
-hmmm. Quantos anos vcs tinham?
-Ela 17 e eu 26
– Tu recém foi pai então?
– ahan
– meu, tu é quase 10 anos mais velho que ela. Acho q ela n queria engravidar e ter um filho sozinha em SP
– mas ela n se cuidou
n tenho muito a ver com isso
(combinação desfeita por mim, por motivos óbvios)7
*Ivan – 34 anos
-Divorciada?
-Oi. Tudo bem contigo? Sim, sou separada. Por que?
-É que mulher com filho a gente pergunta né
– Por que?
-Se n casou é que n vale muito
– Como assim? tu vai vender a mulher? Quanto é que ta o @ da mulher no século XXI?
– Li teu perfil até o final agora
vc é feminista
raça ruim eim
o corno que deve ter te dado um pe na bunda pq tu n se depila

8
*Renan – 26 anos
-…
– mas vc foi irresponsável
– Fomos um pouco, mas levo uma vida normal.
– e vc cria seu filho sem pai?
-Não. meu filho tem um pai, que ama muito ele.
Nao entendi a colocação.
– alem de mãe e bura kkkkkkk
– Burra? Além de mãe? Por que? Tu tem problemas?
– Problema tem tu q tem filho e fica no tinder catando outra barriga
feminista suja
professor ainda kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

9
*Tarciso – 31 anos
-…
– Sou marinheiro e busco apenas aventuras.
– hmmm
– Você ser mãe facilita as coisas
– Por que?
– Porque não precisamos fingir engenuidade e podemos pular os cortejos.
-INgenuidade, querido.
– Vá se f*der
sozinha kkkk

10
*Elton – 29 anos
-… eu concordo com esses caras na verdade
– tu concorda com os absurdos que disse que já ouvi por ser mãe?
– ué, vc ficou solteira pq quis e parece esperta
– e???
– e que todo mundo sabe q ngm leva a sério mulher com filho
– Por que?
-p q se ja teve filho e ta solteira boa coisa n é
– Então todas mulheres divorciadas são péssimas pessoas e péssimas mães? e as que são mães solo porque o cara fugiu?
– N. minha mãe tbm se divorciou quando eu era criança pq meu pai batia nela
– ela foi uma mãe ruim?
– N né
minha cora é minha vida
– Quantos anos ela tinha quando isso aconteceu?
– Ela tinha 26 e eu 5
– Eu e sua mãe fomos mães com a mesma idade e nos separamos também com quase a mesma idade hehehe
(match desfeito, por ele)

Quando se fala em irresponsabilidade social e abuso afetivo sobre as mulheres, negligenciar essa cultura da misoginia acerca da maternidade é ser canalha. A solidão da mãe é vista como obstaculo para tornar aquela mulher forte. Nós não queremos esses obstáculos. Ninguém quer. Essa cultura coloca todos os dias milhões de mulheres numa posição que facilita a exposição aos abusos.

Logo depois que me separei, passei por vários “relacionamentos” que tinham um traço forte em comum: Todos homens que me relacionei me esconderam socialmente. O primeiro homem que me assumiu socialmente, no entanto, era mais um dos abusadores emocionais que estão por aí. E eu caí, como uma presa, em mais um relacionamento abusivo porque estava recebendo atenção. Fingia estar bem, feliz, que tudo era flor amor e gratidão, mas a gente aprende a disfarçar bem e evitar perguntas. Enlouqueci, literalmente.

Hoje sigo no limbo social e emocional que nos colocam, fingindo que sou forte e que está tudo bem.

Não está.

Esses diálogos nojentos aí em cima provam que nada está bem.

O meu estado “civil” no momento não importa pra ninguém porque essa não é a questão desse experimento e do futuro artigo. Meu estado emocional e o estado emocional de todas as mães que escondem sua maternidade no primeiro momento para evitar fetichização e conseguir atenção afetiva, sim.

Ser mãe não é amar incondicionalmente e abrir mão da vida social/sexual/amorosa; nem desfazer planos, nem se privar da carreira, nem se privar de todos os sonhos e planos traçados. Isso é ser submissa à alguém. Ser mãe é ser responsável pela vida de um terceiro, eternamente ligado a ti. Nutrir o crescimento desse ser da melhor maneira que conseguires e se esforçar muito pra que tudo de certo pra ele, em primeiro lugar.

Sempre que se fala da mãe, se fala dela como algo terceirizado, como uma entidade atrelada ao filho de uma maneira submissa. Isso é desumanizador.

Espero que esse experimento e esse textinho facebookiano ajude a elucidar a posição que todos vocês acabam nos colocando dentro dessa estrutura patriarcal e misógina.

Ser mulher não é fácil.

Ser mulher e mãe, menos ainda.

Ser mulher, mãe e reivindicar uma vida social fora dos padrões patriarcais, é enlouquecedor.

Na luta da mulher mãe, a resposta é essa mesmo: Não há ninguém perto de você, só seu filho.

Feliz dia das mães. Comprem um presente pras suas, aliviem a culpa e reflitam o quanto de abuso emocional elas já sofreram por serem mães de vocês.

Pai, marido, irmão, cunhado, chefe, amigo, namorado, colega… todos já foram abusivos e/ou negligentes de alguma forma.

Pensem em quantas mulheres permanecem em relações falidas e criminosas com medo da solidão.

Mãe de bicho lê/ouve coisas como essas todos os dias? Alguém já deixou de te assumir porque vocês tem um gato e dois cachorros em casa? Você sofre abuso emocional em todos os meios que vive e circula, inclusive o familiar, por ter bichos e ama-los muito?

Eu queria ter escrito mais, muito mais mesmo; mas não deu. Prefiro manter minha saúde emocional minimamente estável no dia de hoje porque sei que tem muita mulher que aguenta firme coisas muito piores. Reconheço meus privilégios.

*os prints das conversas não foram postados porque a intenção não é transformar isso aqui num álbum de nojeiras. As conversas foram transcritas, mantidas abreviaturas e corrigidas falhas de digitação. Os nomes e idades também foram mantidos.

*não foram vinculadas fotos do meu filho nem seu nome foi exposto em nenhum momento. foi apenas informada a maternidade.

*as mulheres na mesma condição que eu sabem identificar cada frase e contexto, porque certamente passam por isso diariamente.

*não somos menos mães por nada disso.

*não amo menos meu filho por entender que ele não é minha propriedade e eu não sou propriedade dele.

*também vivo em processo de enfrentamento familiar constante por negar o padrão. A luta também acontece no âmbito familiar, por mais massa que seja minha família.


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