Nossa economia doente, em um simples gráfico

Por David Leonhardt em The New York Times | Tradução Daniel Sant’ Ana

Muitos americanos podem não se lembrar de outra coisa que não seja uma economia com desigualdades fora de controle, na qual o padrão de vida para a maioria dos americanos está estagnando e para os ricos está cada vez se distanciando mais. Parece inevitável.

Mas não é.

Um famoso time de pesquisadores sobre a desigualdade – Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman –  tem chamado a atenção recentemente por causa de um gráfico que eles produziram. Este gráfico mostra a mudança de renda entre 1980 e 2014 para cada ponto na distribuição, e resume de forma clara o recente alto crescimento da desigualdade.

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Texto à esquerda: “Os pobres e a classe média costumavam ver um maior crescimento da sua renda”     
Texto à direita: “Mas agora, os muito ricos (percentil de 99,999) é que têm um crescimento absurdo da sua renda”

A linha no gráfico (a qual nós recriamos como a linha vermelha acima) se assemelha a um taco de hóquei (N.do T.: os gráficos nesse formato foram nomeados – por sua forma – de “taco de hóquei” por Jerry Mahlman, climatologista, a partir dos estudos sobre aquecimento global. Nesses gráficos se observava um aumento quase exponencial das médias de temperaturas quanto mais se afasta do ano 1900, onde começaram a ser feitas as medições de médias de temperatura mundial, e se aproxima dos anos 2000). É quase plano e próximo de zero antes de despontar em um pico no fim. Este pico mostra que os muito ricos, e somente os muito ricos, receberam ganhos significantes nas décadas recentes.

Esta linha captura o aumento na desigualdade melhor que qualquer outro gráfico ou síntese simples do assunto que eu já tenha visto. Então eu procurei os economistas com um pedido: poderiam eles produzir uma versão do seu gráfico para os anos anteriores a 1980, para capturar as tendências de renda após a II Guerra Mundial? Você está olhando para o resultado aqui.

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O gráfico representa a porcentagem de crescimento da renda em se considerando as diferentes rendas (a renda cresce da esquerda para a direita. Pode-se observar que o crescimento quase exponencial em 2014 está concentrado nas porções de maior renda: os super-ricos)

A mensagem é direta. Apenas algumas décadas atrás, a classe média e os pobres não estavam apenas recebendo aumentos vigorosos de renda. Sua remuneração estava aumentando até mais rapidamente, em termos percentuais, que a remuneração dos ricos.

Os aumentos de impostos pós-inflacionários que era típicos para a classe média durante a era pré-1980 – entre 2 por cento ao ano – se traduziram em rápidos ganhos no padrão de vida. Nesta taxa, o orçamento familiar quase que dobraria em 34 anos (o time de economistas usou janelas de 34 anos para mantê-lo consistente com o gráfico original, que cobria de 1980 a 2014).

Nas décadas recentes, no entanto, somente famílias ricas – aquelas localizadas nos 2,5% (N. do T.: 1/40 avos, no original) do topo da distribuição de renda – receberam esses grandes aumentos. Sim, a classe média alta se deu melhor que a classe média e os pobres, mas os abismos maiores estão entre os super-ricos e todo o resto.

O problema central é que a maioria das famílias costumava receber algo próximo de sua fatia justa no crescimento da economia e agora elas não estão mais.

É verdade que os EUA não podem magicamente retornar aos anos 1950 e 1960 (nem nós gostaríamos disso, considerando todas as coisas). O crescimento econômico foi mais rápido naquelas décadas do que razoavelmente esperamos hoje. Ainda assim, não há nada de natural na distribuição do crescimento atual – o fato que o prêmio da nossa economia flui esmagadoramente para uma parte pequena da população.

Diferentes políticas poderiam produzir um resultado diferente. Minha lista começaria com impostos que favorecessem menos aos mais ricos, um melhor sistema educacional, mais poder de barganha para os trabalhadores e menor tolerância para os processos de consolidação corporativa (N. do T.: fusões e incorporações).

Notadamente, o presidente Trump e os líderes Republicanos no Congresso estão tentando ir na direção contrária. Eles gastaram meses tentando retirar o seguro-saúde de milhões de famílias pobres e de classe média. Os seus planos iniciais de reforma tributária reduziriam impostos para os ricos muito mais do que para todo mundo. E eles querem cortar gastos em escolas, mesmo que a educação seja simplesmente a melhor maneira de melhorar o padrão de vida da classe média a longo prazo.

A maioria dos americanos olharia para esses gráficos e concluiria que a desigualdade está fora de controle. O presidente (N. do T.: dos EUA), por outro lado, parece pensar que a desigualdade não é grande o bastante.

David Leonhardt é jornalista e colunista do New York Times. Foi finalista do Prêmio Pulitzer em 2003 pelo artigo “Obamanomics” no NYT, prêmio que acabou ganhando em 2011, como comentarista econômico. 

 

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