A escritora que fugiu do comunismo na Rússia e hoje faz a cabeça da direita

O único objetivo do homem é o seu próprio interesse. Ninguém deve se sacrificar pelos outros, nem pedir que se sacrifiquem por você. O capitalismo de livre mercado é o sistema econômico ideal.

Essas frases inspiram parlamentares conservadores britânicos, membros do partido republicano nos EUA, e, mais recentemente, conservadores e liberais brasileiros. Mas elas têm uma origem inusitada: personagens de ficção com nomes como John Galt, Dagny Taggart e Howard Roark. Todos eles criados pela filósofa Ayn Rand.

Livros como A Nascente e A Revolta de Atlas, que já foram reverenciados por milhares de leitores – mas criticados por detratores – voltaram a fazer sucesso nos últimos anos entre políticos, educadores e universitários.

O presidente americano, Donald Trump, e seu secretário de Estado, Rex Tillerson, também declaram sua admiração pela escritora. O presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Paul Ryan, teria distribuído cópias de A Revolta de Atlas, considerado a obra-prima de Rand, aos membros de sua equipe.

O livro se passa num futuro em que empresários americanos sofrem com leis e regulações cada vez mais duras. A executiva Dagny Taggart luta contra o que a autora chama de “exploradores” – burocratas, sindicalistas e funcionários pouco qualificados – que se aproveitam de seu sucesso. Enquanto isso, um homem misterioso chamado John Galt convence inventores, empresários e executivos a entrarem em um tipo de greve contra o governo.

Em meio à história, mas nem tão disfarçadamente assim, Rand prega os fundamentos da filosofia que ela chama de objetivismo, baseada na razão, no individualismo, no Estado mínimo e no capitalismo ultraliberal.

Em 2009, após a crise financeira, Atlas voltou à lista dos livros mais vendidos nos Estados Unidos. Em 2011, teve seu segundo melhor ano de vendas desde que foi publicado, em 1957.

No Brasil, em 2017, João Amoêdo, administrador de empresas fundador do Partido Novo, recomendou a leitura do romance no jornal Folha de S. Paulo, assim como o jurista conservador Ives Gandra. Em fevereiro, uma reedição da obra chegou à lista de mais vendidos no país.

Sem altruísmo

Rand é considerada um contraponto ultraliberal à ética socialista, e com uma credencial frequentemente mencionada por seus fãs: também é russa.

Ela nasceu Alissa Zinovievna Rosenbaum, em uma família judia de classe média que empobreceu após a Revolução de 1917 – uma experiência que teria sido o embrião de seu desprezo pelas ideias de bem comum e de Estado como mecanismo para assegurar a igualdade. Em 1925, ela foi para os Estados Unidos sob o pretexto de visitar a família e nunca retornou.

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Romance considerado obra-prima de Rand fala de “greve de homens de talento”. Foto: DIVULGAÇÃO

Lá, assumiu o nome de Ayn Rand e trabalhou como roteirista de cinema e teatro em Hollywood, enquanto escrevia seu primeiro romance, de memórias da Revolução Russa. Mas o reconhecimento do público veio somente com A Nascente (1943) – que o presidente americano Trump costuma citar como um de seus livros favoritos.

Com Atlas, de 1957, Rand ganhou espaço entre os ambiciosos jovens americanos dos anos 1950, mesmo sem conquistar os críticos. Logo, ela tornou-se filósofa em tempo integral, e um grupo de seguidores do objetivismo passou a se reunir para debater suas ideias.

Segundo Rand, “o homem existe para que seu maior propósito moral seja o alcance da sua própria felicidade”.

Ao contrário das ideias de Karl Marx, que ela considerava totalmente opostas às suas, a russa acredita que a mudança na sociedade deveria começar com uma revolução moral dentro de cada indivíduo, que deve espalhar os ideais “corretos”, ela diz, por meio do discurso racional.

Em seus ensaios, ela defende que os interesses humanos, se forem determinados pelo que chama de “virtude do egoísmo”, sempre levam a trocas saudáveis e ao crescimento da sociedade.

Para garantir que indivíduos queseriam, em sua opinião, “pouco racionais” não trapaceiem ou roubem os demais, o papel do Estado deveria ser limitado a fornecer o Exército – de adesão voluntária – a polícia e o sistema judiciário. Nada de saúde pública, ensino público ou programas sociais.

“Ela defende que o que nos diferencia, nesse caso, são nossas capacidades, nossa motivação, nossa ambição, nossos valores, o sentimento de que eu sou responsável pelo destino da minha vida e ninguém mais”, explica Eduardo Chaves, professor aposentado de filosofia da Unicamp e especialista na obra de Rand.

“Não devemos esperar que venha de terceiros – seja de filantropos, seja de governos com vocação social – a solução dos nossos problemas. A esquerda diz que isso é culpar o pobre pela sua pobreza, mas, para Rand, simplesmente não há igualdade nos talentos naturais com os quais nascemos, nem nas circunstâncias ambientais, na família. E não vamos conseguir equalizar o ponto de partida com políticas públicas. Há elementos de sorte e de azar.”

A teoria, segundo seus críticos, reforçava a ideia de que os mais ricos possuem mais talento, e que os desprivilegiados não devem ser ajudados – o que ainda causa polêmica nos círculos acadêmicos.

Segundo a Enciclopédia de Filosofia de Stanford, os ensaios de Rand “não têm autocrítica e nenhuma tentativa de considerar possíveis objeções a suas visões” e dizendo que “seus argumentos frequentemente não sustentam suas conclusões”.

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Escritora defendia que sociedade ideal é desigual, mas livre para que todos cresçam – sem a ajuda de terceiros. Direito de imagem: AYN RAND INSTITUTE

‘Laissez-faire’

Um dos principais seguidores de Rand nos anos 1960 era o jovem Alan Greenspan, que se tornaria presidente do Federal Reserve (FED, o banco central americano), de 1987 até 2006 – e seria apontado como um dos principais responsáveis pela grande crise econômica de 2008.

Greenspan foi indicado pelo então presidente americano Ronald Reagan que, juntamente com a a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, levariam a todo o mundo ocidental o conceito de que as forças do mercado, livres, eram o melhor mecanismo de distribuição dos recursos da sociedade.

Anos depois, o próprio Greenspan questionaria esse pensamento após os efeitos da crise de 2008 na economia dos EUA e de países europeus. Diante do Congresso americano, em 2009, ele disse que havia “percebido um erro” na sua confiança no capitalismo de livre mercado.

Mas para o israelense radicado nos Estados Unidos Yaron Brook, atual diretor do Instituto Ayn Rand, que promove suas ideias, os problemas atuais ocorrem justamente porque não temos capitalismo o suficiente. Ao menos não como a filósofa gostaria.

“A maior parte dos países do mundo hoje vive economias mistas, com algum grau de liberdade econômica, alguns elementos do capitalismo e muita intervenção do governo. Hoje há muita distribuição de riqueza e muita regulação, até nos EUA. E olhe que os EUA é uma das melhores economias”, reclama.

Mas sem leis para regular as transações econômicas, como garantir que não haverá exploração do trabalho? “Não vemos exploração nos lugares onde deixamos as pessoas e os negócios fazerem o que quiserem. Vemos pessoas produzindo, criando, negociando, fazendo suas vidas e melhorando.”

Brook, que é consultor de investimentos no mercado financeiro, admite que na sociedade atual há trabalho análogo à escravidão, “especialmente em países da África, por exemplo”.

“E eu condeno tudo isso, e acho que a solução para isso é capitalismo e propriedade privada, e um governo local que respeite os direitos de propriedade e a santidade da vida humana. Não dá para culpar o capitalismo automaticamente pelos problemas do mundo se ele nem existe”, completa, dizendo que, em sua opinião, não vivemos numa sociedade realmente capitalista há pelo menos 100 anos.

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Ex-presidente americano Ronald Reagan, principal símbolo do liberalismo, se declarava admirador da obra de Ayn Rand. Direito de imagem: AFP | GETTY IMAGES

Eduardo Chaves, no entanto, diz ser adepto de uma abordagem menos “radical” às ideias da escritora, apesar de se considerar um verdadeiro “liberal randiano”.

“Estamos num mundo muito mais complexo, desigual e corrupto do que o que ela descreveu em A Revolta de Atlas. Então não dá para parar tudo e fazer do zero, como se faz no livro”, afirma.

“No Brasil, do governo Itamar até Lula, houve uma série de aplicações de ideias que ela defendia: por exemplo, a privatização de uma série de áreas da economia, como telefonia, estradas, etc. Essa ideia de diminuir o tamanho do governo é randiana. Se você perguntasse para ela se esse processo lento e gradual funciona ela diria que isso levaria mais de 100 anos e não iria realmente transformar a sociedade. Mas seriam mudanças no sentido das ideias dela.”

Conservadora?

No ano passado, Rand foi incluída pela primeira vez no currículo de política do ensino secundário britânico, ao lado de grandes nomes do conservadorismo como Thomas Hobbes. Mas ela não ficaria satisfeita com isso, segundo os especialistas em sua obra.

No livro Goddess of Market: Ayn Rand and the American Right (Deusa do Mercado: Ayn Rand e a Direita Americana, em tradução livre), a historiadora Jennifer Burns diz que Rand rejeitava os conservadores, porque sua teoria era contra a moral religiosa e defendia a separação completa entre Estado e Igreja, assim como entre Estado e economia.

Para Burns, a vitória de Trump significou justamente “o fim do romance” dos republicanos com a obra e as ideias de Rand, que eles citavam nos comícios.

“Ao eleger Trump, a base republicana rejeitou o capitalismo liberal em favor do nacionalismo econômico”, disse, em artigo no jornal Washington Post.

Yaron Brook, por sua vez, acha completamente equivocada a associação atual de Rand com a direita nos EUA.

“As pessoas falam de Ayn Rand sem entender exatamente o que ela quis dizer. Donald Trump diz que leu A Nascente e gostou. Mas não sei nem se ele entendeu o livro, não sei nem se terminou”, critica.

“Posso dizer, como administrador do Instituto Ayn Rand, que esse governo não tem nada a ver com a filosofia de Ayn Rand. Ela odiaria Trump. Ele é tudo ao que ela se opunha em um homem de negócios: ele usa seu governo para conseguir favores, ele é um centralizador de planejamento que não confia no mercado.”

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Depois da crise de 2008 nos EUA, livros de Rand voltaram a listas de mais vendidos. Direito de imagem: GETTY IMAGES

Outro ponto no qual Rand e a direita de hoje divergiriam seria direito da mulher de escolher o aborto, ao qual ela era favorável. Ela também se declarava contra as leis antidrogas e seu ateísmo fez com que ela afirmasse que o conservadorismo religioso era “o pior de todos”.

“Não dá para defender a filosofia de Ayn Rand e ser católico ao mesmo tempo”, diz Brook. “Ela era pró-aborto, antirreligião, a favor da separação de Igreja e Estado, pró-liberdade sexual. Em diversos assuntos sociais, ela seria considerada de esquerda, e não de direita. Nos anos 1980, ela se recusou a votar em Ronald Reagan, que era liberal, por causa da sua posição antiaborto e a favor da religião.”

No Brasil, Eduardo Chaves diz que os admiradores de Rand “se distanciam” de suas ideias mais progressistas, contentando-se em apoiar sua defesa do liberalismo econômico total.

Milionários

Os fãs mais conhecidos e fiéis de Rand costumam ter algo mais em comum: são – ou pretendem ser – multimilionários. De preferência, por serem considerados mais inteligentes, mais trabalhadores ou à frente do seu tempo.

“Por muito tempo, ela foi adorada por empreendedores, investidores de risco, pessoas que se veem moldando o futuro, indo à frente dos demais, apoiando-se somente em seus instintos, intuição e conhecimento, e indo contra a corrente”, diz Jennifer Burns.

Para além da política, revista americana Vanity Fair descobriu uma das principais áreas de influência de Rand nos dias atuais: o Vale do Silício.

Executivos das start-ups mais importantes do momento como Travis Kalanick, CEO do Uber, Peter Thiel, cocriador do PayPal e investidor do Facebook, e até Steve Jobs e Steve Wozniak, criadores da Apple, citaram livros de Rand como seus “guias”, segundo a revista.

A admiração da russa pelos ricos tinha uma exceção, no entanto: aqueles que herdavam a riqueza também eram chamados de “nepotistas”. Segundo a filósofa, a riqueza viria para os que se mostrassem mais dispostos a usar a razão e a energia no trabalho criativo.

Para ela, era “imoral”, por exemplo, “colocar coisas como amizade e laços familiares acima do próprio trabalho produtivo”.

“Amizade, vida familiar e relacionamentos humanos não são primordiais na vida de um homem. Um homem que coloca os outros acima de seu próprio trabalho criativo é um parasita emocional”, disse em uma entrevista à Playboy em 1964.

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Executivos do Vale do Silício estão entre os que dizem ter livros de Rand como “guias”. Direito de imagem: AFP

Críticos dizem que Rand apela aos milionários por causa do discurso que minimiza seus privilégios e os consideraria vítimas de uma sociedade que não os deixa completamente livres para crescerem.

Mas para Yaron Brook, o diretor de seu instituto, ela estava certa. E isso não é um problema.

“Sinto pena de Bill Gates, apesar de ele ser o homem mais rico do mundo. Eu acho que ele anda por aí com um sentimento de culpa desnecessário, e está fazendo filantropia hoje porque sente que precisa agradar as pessoas. Mas ele fez do mundo um lugar muito melhor ganhando bilhões na Microsoft do que com sua filantropia”, afirma.

“Os gênios, os empreendedores, os criativos – nem todos, porque alguns de fato são trapaceiros e ladrões – são forçados a se sentir culpados quando estão mudando o mundo para melhor. E isso é uma das grandes tragédias do nosso tempo. Tratamos mal os gigantes da sociedade”, conclui.

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