Ex-docente da Estácio manda carta a Temer: por onde andam MP e MEC?

Professor e pesquisador Wander Lourenço questiona onde andam o órgão de investigação e o Ministério da Educação, “que não interferem no exercício deste desdouro difamatório que culminou na demissão de 1.200 docentes de forma humilhante e grosseira”, e exige “um mínimo de respeito e valorização por nossas biografias, maculadas pela ganância exacerbada dos mentores deste genocídio acadêmico”; acadêmico lembra que as demissões da universidade do Rio são resultado da “tão propalada Reforma Trabalhista” de Temer; leia a íntegra

Reproduzido por Brasil 247

Por Wander Lourenço, professor doutor, ex-docente da Universidade Estácio, escritor, cineasta e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Clássica de Lisboa

Prezado senhor presidente da República, Michel Temer, escrevo para informá-lo que a sua tão propalada Reforma Trabalhista incidiu na demissão de 1.200 docentes da Universidade Estácio de Sá, que serão substituídos por colaboradores terceirizados, ainda que a instituição de ensino recuse com veemência que tamanha covardia acadêmica se configure em 2018, com o respaldo que as modificações jurídicas abalizam vergonhosamente. Entretanto, é fato que profissionais que construíram a tradição deste estabelecimento educacional foram escorraçados do ofício da docência, após décadas de dedicação, com a esdrúxula justificativa de que eram remunerados acima do piso salarial vigente. A questão se agrava ainda mais quando nos deparamos com perdas significativas, enfrentadas com honradez por responsáveis pela execução das aulas, que se acumularam no decorrer de uma década, prejudicando a aprendizagem de milhares de alunos, ludibriados por criminosas inferências administrativas.

A exemplo, cito a implantação de turmas de Ensino a Distância (EAD), denominadas por um gênio da mediocridade como Gulliver, por seu caráter gigantesco que abarca 450 alunos em sala de aula, além de turmas presenciais de 125 alunos amontoados num espaço de promiscuidade acadêmica que, decerto, aniquila o direito de ensino/aprendizagem. Todavia, uma frase de um gestor traduz a estratégia de obtenção de absurdo retorno financeiro: “Custo é como unha: tem que estar sempre cortando”. Até soaria ironicamente se o cinismo destes flibusteiros da educação, que ancoraram no ensino superior com a avidez do lucro inconsequente e obsessivo provindo do mercado financeiro, não desmoralizasse o diálogo intelectual entre professores e alunos que, resignados, se submetem a tal humilhação.

Senhor presidente, as prédicas das Leis Trabalhistas orquestradas pelo Ministério da Educação (MEC) deveriam fiscalizar a vileza de uma transformação que avulta a patamares de pusilanimidade e desonra sobre docentes, que empenharam conhecimento e titulação em nome de um respeito sonegado pela incursão de um desligamento em massa, por intermédio de uma espécie de chacina moral, que avilta a dignidade humana. Diante da obrigatoriedade de resposta aos Fóruns das turmas Gulliver em 48 horas, alguns colegas de profissão, através de infame trocadilho, alcunharam a Educação a Distância da Estácio de “Escravidão a Distância” e os funcionários administrativos se (auto)intitulam “Escravos de Sá”.

Por onde andam Ministério Público e avaliadores do MEC, que não interferem no exercício deste desdouro difamatório que culminou na demissão de 1.200 docentes de forma humilhante e grosseira? Nós, professores desta instituição, ao chegarmos para iniciarmos o processo de encerramento semestral, fomos conduzidos coercitivamente pelo funcionário até o gestor da unidade, como se fosse um carcereiro nazista a caminho de uma câmera de gás de um campus de concentração. Nós, professores da Estácio, exigimos um mínimo de respeito e valorização por nossas biografias, maculadas pela ganância exacerbada dos mentores deste genocídio acadêmico, outorgado pelo aviltamento de milhares de famílias dos docentes e discentes desamparados, a clamar por justiça.

Por obséquio, senhor presidente Temer, ajuíze-nos diante da aniquilação acadêmica demonstrada por um ato de insensatez aplaudido pelos investidores, mas que, sobretudo, não silenciará em nós, enquanto houver um átimo de resistência, uma réstia de discernimento, um resquício de reivindicação.

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