Opiáceos, a epidemia mortal que rende bilhões

EUA afundam numa gigantesca onda de overdoses. Mas ninguém controla as drogas que engordam a indústria farmacêutica e financiam o sistema político

Por Luis Miguel García, no La Marea Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel em Outras Palavras

Há alguns anos que os Estados Unidos padecem de uma epidemia de mortes produzidas por analgésicos opiáceos vendidos com receita médica, como o Vicodin, o Percocet e o OxyContin. A venda desse tipo de analgésico quadruplicou desde 1999, uma vez que passaram a ser indiscriminadamente prescritos. E isso multiplicou por três as mortes por overdose. Com efeito, de acordo com os dados oficiais, em 2016 registraram-se 52 mil mortes por overdose, entre opiáceos legais e ilegais, incluindo sua alternativa mais barata: a heroína ‒ além das outras mais potentes que ela, como o fentanil e o carfentanil, este último 10 mil vezes mais potente que a morfina.

A overdose já é a maior causa de mortes entre menores de 50 anos, e se estima que 2,2 milhões de norte-americanos sejam dependentes de opiáceos, dos quais, apenas 20% chegam a receber tratamento. Estima-se também que, nessa epidemia, já teriam morrido 200 mil pessoas, uma cifra consideravelmente elevada se a comparamos, por exemplo, com as 36 mil mortes na Guerra de Coreia (1950-1953) ou as 58.000 na Guerra do Vietnã (1955-1975). Veja o quadro:

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Fonte: Centers for Disease Control and Prevention (EUA)

Após a epidemia de heroína protagonizada pelos veteranos de guerra que voltavam do Vietnã, os opiáceos passaram a ter péssima fama, e ficaram reservados às doenças graves e aos pacientes terminais. No entanto, a partir dos anos 90 começaram a ser usados para tratar enfermidades mais leves, como a artrite e as dores de coluna, e essa tendência foi aumentando por conta das novas diretrizes médicas, das políticas dos planos de saúde privados e das campanhas de marketing, que acabaram fazendo com que agora sejam receitados para qualquer dor de cabeça, apesar do seu potencial para gerar dependência, o que, a princípio, já constituiria uma má prática médica. De acordo com um levantamento do National Safety Council, 71% dos médicos receitam opiáceos para tratar dor nas costas crônica e 55% para uma simples dor de dente.

Essa epidemia não surgiu do nada. Ela é fruto do investimento bilhonário das grandes indústrias farmacêuticas, que, com pleno conhecimento, promoveram a massiva prescrição de opiáceos e o desprezo pelos riscos implícitos no seu uso. Basta como exemplo citar o caso da Purdue Pharma, fabricante do OxyContin (que tem como base o opioide oxycodona), que em 2007 foi condenada a pagar mais de 600 milhões de dólares de multa, depois de provado que a empresa enganou pacientes, médicos e agências reguladoras sobre os riscos de dependência do medicamento; riscos conhecidos pelo fabricante antes mesmo da aprovação da sua venda, como ficou provado pelos emails internos da empresa. Além de duplicar o número de comerciais entre 1996 e 2002 e de aconselhar os médicos a aumentar a dose, ao invés de reduzir o tempo entre uma ingestão e outra, a empresa distribuiu cupons aos médicos para que seus pacientes recebessem amostras grátis de opiáceos para um tratamento de um mês, entre outras práticas de marketing agressivo.

Outras companhias que dominam esse mercado lucrativo são: Johnson & Johnson, Depomed, Insys Therapeutics e Mylan. Todas elas investiram milhões de dólares em ações de lobby no Congresso norte-americano. O resultado é que a população dos Estados Unidos, que representa 5% da população mundial, consome 75% dos medicamentos prescritos mundo e 80% dos opiáceos ‒ enquanto o Canadá e a Europa Ocidental somam outros 15%, e o resto do mundo fica com os 5% restante. Não por casualidade, os Estados Unidos são o país do mundo com o maior gasto em saúde, montando 17% do PIB, o dobro de qualquer país europeu, enquanto 12% da sua população em idade laboral sequer têm acesso à assistência médica.

Frente aos abusos no uso e às overdoses, as companhias farmacêuticas encontraram soluções lucrativas. Assim, as compras de naloxona, o antídoto contra os opiáceos, foram estimuladas pelo governo Obama, que pretendia que ele estivesse acessível em prédios e espaços públicos, proporcionando créditos para a aquisição de grandes lotes. O resultado é que seu preço foi multiplicado até 17 vezes e os hospitais logo se viram desabastecidos.

Do mesmo modo, para fazer frente ao uso indevido (recreativo) de opiáceos, os fabricantes patentearam variantes dos medicamentos nas quais sua pulverização ‒ para posterior inalação ou injeção venosa ‒ torna-se mais difícil. Essas variantes, vendidas como “antiabuso”, por irritar as fossas nasais se pulverizadas e cheiradas, ou por vir combinadas com outras substâncias que atenuam os efeitos narcóticos, não chegaram a comprovar que podem diminuir o risco de overdose. No entanto, seu patenteamento as torna mais caras e renova o ciclo comercial, uma vez que os grupos de pressão buscam implementar novas regulações federais que obrigam a FDA (Food and Drug Administration ‒ que tem ¾ do seu orçamento financiado pela indústria farmacêutica) a substituir os atuais opiáceos por essas novas versões. No âmbito das legislações estaduais, em complemento, a tendência passa a ser a de obrigar os planos de saúde a oferecer as novas variantes de opiáceos. Assim, por exemplo, um mês de tratamento com Embeda (da Pfizer) custa cerca de 268 dólares, frente aos 38 dólares do que seria com morfina genérica. Buscando preços mais baratos na Internet, é possível conseguir essa mesma morfina por 27 dólares.

Outra vertente de lucro é a dos tratamentos contra a dependência de opiáceos. Medicamentos como a buprenorfina são produzidos pelos mesmos laboratórios, que tratam de produzir novas versões assim que as patentes das versões anteriores estejam para caducar.

Gasta-se muito dinheiro nos Estados Unidos com medicamento recém-patenteado. As novas versões “antiabuso” dos opiáceos são maciçamente prescritas para veteranos de guerra, já na terceira idade, que representam um risco muito baixo de que possam cheirar ou injetar substâncias desse tipo. Todo esse dinheiro talvez fosse melhor usado em campanhas de prevenção e de informação à comunidade médica, como também em centros de tratamento à dependência, uma vez que, até agora, nenhuma versão conseguiu reduzir a forma mais comum de abuso de opiáceos: ingerir uma dose maior que a indicada.

Por outro lado, uma vez que o ácido cítrico dissolve alcaloides como a diamorfina (ou heroína ‒ por sua vez uma acetilização da morfina) [N. do T.: operação que é a base de drogas como a krokodil, a droga que “devora carne humana”, por conta destruição do tecido muscular pelos compostos ácidos], é possível encontrar no Youtube ou em fóruns digitais instruções para converter os caros comprimidos “inquebráveis” em algo facilmente injetável, tornando inúteis suas pretensões “antiabuso”.

Outra frente aberta pela indústria farmacêutica é a dos supostos grupos de pacientes, como o obscuro Pain Care Forum, subvencionados por laboratórios, que pressionam os legisladores para não dificultar a prescrição de analgésicos opioides ou impor a informação médica sobre os riscos do seu uso. A propósito, apenas no lobby em favor dos opiáceos, a indústria farmacêutica nos Estados Unidos investiu 880 milhões de dólares no apoio a mais de 7.000 candidaturas políticas em todo o país. Isso pode ser comparado com os escassos 4 milhões de que dispõem os grupos que defendem limites à prescrição de opiáceos. Com uma enxurrada de dólares, a indústria farmacêutica, martela na opinião pública a ideia de que um limite à disponibilidade de opiáceos prejudicaria milhões de doentes crônicos. E assim conseguem que sejam aprovadas leis como as que favorecem os opiáceos e seu circo de patentes.

Para isso, em 2011 realizou-se uma maciça campanha de marketing apoiada sobre o mito de que 100 milhões de norte-americanos sofrem de dor crônica, precedida de outra, poucos anos antes, que afirmava que menos de 1% dos usuários de opiáceos tornam-se dependentes. Ambas as proposições são falsas. De acordo com um estudo de 1999 financiado pela farmacêutica Purdue, 13% dos pacientes que tomavam OxyContin para dores de cabeça se tornavam dependentes. Outro estudo, como o publicado no Journal of Pain por pesquisadores da Washington State University, reduzem a cifra dos 100 milhões de sofredores de dores crônicas para 39 milhões. Nas palavras de Andrew Kolodny, presidente da Associação de Médicos para a Prescrição Responsável de Opiáceos (PROP, organização que não aceita dinheiro proveniente de companhias farmacêuticas), a ideia de que um em cada três norte-americanos sofre de dor crônica é simplesmente ridícula. Se para sua próxima campanha, a indústria farmacêutica necessitar de dados verdadeiros, eles são facilmente encontráveis na Internet. Por exemplo: o de que 86% dos usuários de heroína eram antes usuários de medicamentos opiáceos. Eles passam dos comprimidos para a heroína pelo fato singelo de que esta última é muito mais barata que os cada vez mais caros medicamentos processados.

E, claro, não poderia faltar também o jogo perverso de vasos comunicantes: Desde o ano 2000, pelo menos 56 agentes da DEA (Drug Enforcement Administration) responsáveis pelo planejamento estratégico de repressão ao comércio de opiáceos foram recrutados pela indústria farmacêutica em troca de generosos salários.

De outra parte, a FDA (aquela que tem ¾ do seu orçamento financiado pela indústria farmacêutica) opôs-se à necessidade de abordar a prescrição de opiáceos nos cursos obrigatórios certificados para os médicos, bem como à necessidade de registros eletrônicos que possam identificar usuários que deles façam uso abusivo. Em lugar disso, ela apoia aulas opcionais para os médicos em formação e folhetos nas farmácias, que informem sobre os riscos dos opiáceos. Mais estranho ainda é que esse órgão regulador aprove tais medidas contra o parecer do seu próprio comitê independente de assessoria científica. Não surpreende, portanto, que 99% dos médicos prescrevam opiáceos durante tempo maior que o recomendado (72 horas) pelos CDC (Centros para o Controle e Prevenção de Doenças, dos Estados Unidos); que quase um quarto deles os prescrevam durante pelo menos um mês, tempo suficiente para produzir mudanças nas estruturas cerebrais; e que quase a metade deles acredite que as novas e mais caras versões “antiabuso” produzam menos dependência, o que não é absolutamente verdade.

Os profissionais médicos tampouco estão livres de culpa. Estudos demonstram que a maioria dos médicos foi ou convencida pela propaganda da indústria farmacêutica ou influenciada pelos luxuosos simpósios a que são convidados por ela. Os documentos internos da Purdue indicam, por exemplo, que os médicos que foram convidados para seus congressos em 1996 receitavam mais que o dobro de OxyContin que aqueles que não foram. Os médicos também sofrem a pressão da avaliação por parte dos seus pacientes, e essa avaliação depende de estes últimos terem recebido a receita que desejavam, e não aquela que lhes fosse mais apropriada. Alguns desses pacientes praticam o que se chegou a chamar de “doctor shopping”: ir de médico em médico (às vezes, até, em grupo e em vans alugadas) pedindo receitas de opiáceos. Para evitar essa prática, foi criado um sistema que designa um único médico e uma única farmácia ao mesmo paciente. Esse é basicamente o sistema usado tanto pelos planos de saúde como pelo programa de assistência médica para a população mais pobre (Medicaid), que com isso podem reduzir a fatura farmacêutica que são obrigados a pagar, já que eventuais abusos são mais facilmente detectáveis. Além disso, a legislação passou a determinar que a assistência médica à terceira idade (Medicare) se incorpore a esse sistema. No entanto, nenhuma lei impede ainda que 60% dos médicos recebam comissões dos laboratórios farmacêuticos.

Em suma, um mastodôntico sistema de saúde privado, que custa o dobro que qualquer sistema público europeu, foi corrompido, parte por parte, para criar um exército de dependentes aos opiáceos, para a glória maior dos acionistas de um punhado de indústrias farmacêuticas. Os chefões da droga no século XXI já não protagonizam mais as séries famosas da Netflix, ambientadas em países caribenhos, nem trocam tiros com a polícia. Eles se sentam nas confortáveis poltronas dos conselhos de administração das grandes multinacionais farmacêuticas, de onde ditam leis sob medida para os congressistas que fazem parte da sua folha de pagamento.

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