Site busca voluntários para atacar feministas com ácido sulfúrico

Administradoras da página Feminismo Sem Demagogia e familiares receberam ameaças de ataque com a substância química

Por Victória Damasceno em Carta Capital

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Na Índia, ácido sulfúrico é usado como punição para as mulheres acusadas de adultério

Através de mensagens de seus seguidores do Facebook, Gleide Davis foi avisada de que era alvo de uma ameaça. Dona da página Feminismo Sem Demagogia, a militante feminista, juntamente com as outras duas administradoras, Vera Dias e Jéssica Milaré, receberam ameaças do site Rio de Nojeira, onde o autor da postagem oferece 10 mil reais para quem se oferecer a jogar ácido sulfúrico no corpo das mulheres.

O texto foi publicado na tarde de segunda-feira 22 e dá um prazo de trinta dias para que qualquer indivíduo se habilite a cometer o crime. Para a realização do ataque, o site disponibiliza dados pessoais dos alvos, como nome completo, documentos pessoais, número de telefone e até mesmo o endereço pessoal e comercial, além de uma fatura de cartão de crédito.

Apresentado com o codinome ricwagner1, o autor da postagem nomeia a agressão com o uso de ácido sulfúrico como “a cura para o feminismo”. A partir do exemplo indiano, ele elogia a antiga prática do uso da substância química como forma de punição para as mulheres que são suspeitas de envolvimento com homens fora do laço matrimonial.

Após recorde de ataques, em 2013 a Suprema Corte da Índia ordenou a restrição de venda do ácido, utilizado para limpar banheiros e encanamentos. Na época, a substância química poderia ser adquirida por cerca de 20 rúpias, o equivalente a um real.

ácido sulfúrico é escolhido para ataques contra mulheres por ter o poder de derreter os tecidos da pele humana através da queimadura química, causando deformações no rosto, cegueira e pode levar à morte. Na postagem, o autor afirma ser “fundamental” que o ácido toque os olhos, e adiciona que dará um bônus “para quem acertar no couro cabeludo e deixar a vagabunda careca”.

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Administradora da página pediu para seguidores denunciarem endereço web para preservar dados pessoais divulgados na postagem

Segundo o  texto, o pagamento pelo crime seria realizado em duas etapas. O primeiro depósito seria no valor de 3 mil reais antes do ataque e o segundo, com o valor restante, depois que o crime fosse confirmado.

O pagamento seria feito por meio da criptomoeda Monero, avaliada em 949,92 reais, que tem como finalidade ser não-rastreável, o que daria maior segurança às transações. Caso ninguém se habilite, o autor afirma que fará o “serviço”. Ele ainda oferece metade do valor total para aquele que conseguir atacar com o ácido os familiares das vítimas.

Histórico de ameaças

Esta não é a primeira ameaça que as administradoras da página receberam. Gleide Davis conta que houve outras situações em que seus dados foram expostos com a finalidade de promover assédios e ameaças, mas nunca nesta magnitude. “Acredito que isto tenha acontecido pela visibilidade que a página nos dá, mas também por conta da militância que fazemos nas ruas e nos coletivos feministas”, conta.

Moradora de Salvador (BA), Davis atua em diversos coletivos feministas da região. Os ataques contra ela, porém, vão além do seu gênero. Negra e também militante do movimento negro, ela foi vítima de diversas injúrias raciais por meio da postagem, além de ser acusada de “embranquecimento” pela compra de cosméticos.

Com pouco mais de 15 mil seguidores na sua página pessoal, a militante pede que as pessoas denunciem o site para que o endereço web seja retirado rapidamente do ar e preserve os dados das administradoras, mas não descarta a realização do boletim de ocorrência para que o autor do crime seja identificado.

Para ela, ataques como esse representam o momento político brasileiro, onde correntes conservadoras ganham cada vez mais espaço na política e na mídia. Mas afirma que isso não é motivo para se calar. “Perseguições políticas sempre acontecerão neste cenário, e 2018 promete ser um ano muito difícil para a esquerda. Mas nós não podemos deixar de se manifestar por conta dessas perseguições”, completa.

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