68ª Berlinale – Assim se destitui um presidente no Brasil: filme leva bastidores do impeachment ao Festival de Berlim

Documentarista Maria Roamos mostra em ‘O Processo’ as entranhas da comissão do Senado que aprovou a retirada de Dilma Rousseff do poder em agosto de 2016

Por Gregorio Belinchó em El País Brasil

Maria Augusta Ramos pensava que havia visto de tudo em seu Brasil natal. “Até que rodei O Processo”, alerta hoje a autora de uma trilogia de documentários sobre a Justiçaem seu país e de outros filmes sobre problemas brasileiros. Em meados de 2016 pediu permissão ao Senado e a diversos partidos políticos para filmar suas reuniões, suas conversas, seus encontros e suas aparições oficiais antes, durante e depois das deliberações do processo de destituição, o impeachment, da presidenta Dilma Rousseff. “Gravamos dezenas e dezenas de horas, e precisei de seis meses de montagem para encontrar a alma do processo”, conta Ramos na Festival de Berlim, em que O Processo faz parte da seção Panorama Dokumente. “Por isso, para concentrar-me na parte mais dramática, decidi concentrar a metragem nas duas semanas de debates na comissão do Senado que deveria decidir se dava luz verde ou não ao relatório em favor da destituição de Rousseff”. E num lance rápido eliminou uma porção de material.

Ramos não explica muito o que ocorre; quando muito, indica com alguns cartazes as datas e pouco mais. “Não sou eu. São os senadores e os juristas que contam o que se passa, com suas palavras e discursos. E com esses elementos acho que o público entenderá o que acontece. São cartas marcadas. Um falso processo como esse, do qual todos conhecem o final, apesar do que se expõe e se demonstra juridicamente durante as reuniões”, diz a diretora, ecoando a visão de que o impeachment foi uma armação que anima uma parte do país.  Os senadores do PT sabem do final e ainda assim animam uns aos outros para não afundarem. “Querem demonstrar ao Brasil que o que aconteceu –e assim penso eu – é um golpe de Estado institucional. Tanto faz que aquilo de que acusam Rousseff não se sustenta de nenhum ponto de vista, ou que seu primeiro acusador, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, vá para a prisão [por lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos; foi condenado a 15 anos]. Tudo está preparado desde o início.” E isso se nota nos gestos e nas palavras do filme.

Em O Processo Rousseff aparece só no final, quando é chamada a testemunhar no Senado, e nunca Michel Temer, ex-vice-presidente de Rousseff, seu substituto e beneficiário direto do golpe. “O próprio Temer foi o primeiro presidente no cargo acusado de corrupção. Mas ele não me interessava, me atraía mais mostrar as deliberações, as interações dos senadores para refletir a sociedade brasileira, polarizada nesse momento histórico.” Além do mais, desde aquele momento, qualquer cineasta brasileiro presente em um festival de cinema chama a atenção para “o golpe de Estado” e pede apoio a seus colegas estrangeiros. Ramos também considera que é preciso continuar lutando, “pelos brasileiros”, e se emocionou na estreia na Berlinale, que reuniu brasileiros residentes na capital alemã em apoio a Rousseff. “Apesar disso, sou muito pessimista, ainda mais desde a condenação de Lula há alguns dias. Estão limpando o caminho para as próximas eleições presidenciais de outubro para não terem rivais. Oxalá eu pudesse confiar em que haverá um referendo de verdade, e não algo pseudodemocrático com candidatos que assustam. 45% dos brasileiros ficaria sem voz que os representasse.” Gostaria de filmar isso? “Não, estou muito cansada. O Processo me consumiu as forças, agora não tenho energia sequer para pensar no meu próximo filme.” O último sorriso de Ramos se torna um gesto de infinita e profunda tristeza.

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