Objetificação de torcedoras em programa esportivo une clubes rivais contra assédio

Expostas como musas, mulheres foram ridicularizadas com piadas machistas em atração de afiliada da Band, em Goiânia

Por Breiller Pires em El País

Você é uma musa aberta às colocações dos outros?”

“Em um clássico contra o Vila [Nova], se o juiz põe pra fora, você mete a boca?”

“Para uma musa não sofrer dores localizadas, é importante o médico colocar com pressa?”

“Se o seu nutricionista mandar você chupar laranja, você chuparia um saco por dia?”

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Karol Barbosa, torcedora do Goiás, durante o programa Os Donos da Bola

Perguntas capciosas, de duplo sentido, foram direcionadas a Karol Barbosa, de 23 anos, durante o programa esportivo Os Donos da Bola da última quarta-feira, exibido pela TV Goiânia, afiliada da Rede Bandeirantes no Centro-Oeste. Visivelmente constrangida, a torcedora do Goiás tenta manter o sorriso no rosto enquanto se esquiva das piadas machistas proferidas em sequência pelo apresentador Beto Brasil. Os comentaristas do programa, Álvaro Alexandre e Alex Dias, ex-jogador de futebol, parecem se divertir com a situação embaraçosa. Ao responder uma das perguntas, Karol tenta demonstrar seu incômodo: “Essa frase aí não ficou muito boa, não”.

O trecho do programa viralizou nas redes sociais e serviu para unir os rivais Goiás e Vila Nova, que repudiaram a forma como a TV Goiânia/Band tratou suas torcedoras. Não foi a primeira vez que Os Donos da Bola propagou ao vivo o assédio e a objetificação de mulheres. No quadro Desafio das Musas, a atração já havia exposto a torcedora do Vila Karol Rodrigues a constrangimento semelhante: “Se quem não tem perna é perneta, quem não tem punho é o quê?” “Punheta”, responde Karol, despertando gargalhadas do apresentador.

Em nota oficial divulgada nesta quinta-feira, o Goiás afirma que “se sentiu ultrajado com a maneira desrespeitosa e constrangedora” que sua torcedora foi tratada no programa. “É, no mínimo, inquietante que um veículo de comunicação, que deveria contribuir com o crescimento cultural da sociedade, difunda pensamentos tão retrógrados, que remetem à mulher como objeto, um típico comportamento preconceituoso, antiquado e degradante”, informa o comunicado do clube, que recentemente realizou um seminário para mulheres. O Vila Nova também se solidarizou com sua torcedora: “Externamos o nosso repúdio diante da situação insolente, não só em relação à nossa musa Karolina Rodrigues, mas também atinente a todas mulheres, vivenciada no programa Os Donos da Bola. A nossa luta é pelo respeito, seja por quem for, e onde for.”

Titular da Delegacia da Mulher de Goiânia, Ana Elisa Gomes Martins afirma que, até o momento, nenhuma ocorrência foi registrada pelas torcedoras. Ela explica que o os clubes podem ingressar com ação de danos morais contra a emissora pela ridicularização machista de suas torcedoras. Elas, na avaliação da delegada, também podem prestar queixa pelo crime de injúria contra o apresentador que fez as piadas. Ana Elisa ressalta que Goiás é o segundo estado brasileiro que mais registra crimes de violência contra a mulher – só perde para Roraima. Nesse contexto, ela entende que a exposição da mulher como um objeto e piadas que descambam para o assédio, tais quais as disseminadas pelo Os Donos da Bola, contribuem para a naturalização de agressões que têm as mulheres como alvo. “Infelizmente, vivemos em um estado bastante machista e misógino”, diz a delegada. “Expor torcedoras ao ridículo de forma tão grosseira na televisão é só mais uma prova de como a mulher tem sido desrespeitada na sociedade goiana.”

Após justificativas contraditórias, emissora decide tirar programa do ar

Na abertura do programa desta quinta, Beto Brasil disse que “o quadro foi mal interpretado”. Segundo o apresentador, nem ele nem os comentaristas sabiam do teor das perguntas, que teriam sido elaboradas pela produção. Coordenador do núcleo artístico da TV Goiânia e editor responsável pela atração, Leandro Vieira entrou no estúdio para justificar a abordagem às torcedoras, alegando que a intenção do programa era justamente alertar para uma condição vivida pelas mulheres: “Nós sabemos que todos vocês ficaram chocados. Mas, para nós, isso foi um alívio. Nós fizemos [o quadro] para que todos vocês parassem para pensar o que várias mulheres sofrem todos os dias. Esperamos que cada um que se revoltou com o nosso programa seja uma voz real na luta contra qualquer tipo de discriminação e pelo respeito de todas as mulheres”, discursou.

Porém, o histórico de abordagens machistas do programa indica o contrário. Na última segunda-feira, por exemplo, o programa recebeu a visita da musa do Atlético Goianiense, Aline Rezende. A todo o momento, Beto Brasil insistia para que a torcedora desfilasse pelo estúdio: “Dá uma voltinha pra gente aí, musa”, pedia o apresentador. Em outras edições de Os Donos da Bola que contavam com participações de torcedoras, as câmeras frequentemente focavam em decotes e pernas das mulheres.

Após a repercussão – e os protestos de indignação de clubes e torcedores –, a TV Goiânia emitiu um comunicado reconhecendo que o programa, que tem “pitadas de humor”, segundo a emissora, “excedeu o tom”. A afiliada da Band também informou que vai tirar a atração do ar. “Em nenhum momento a intenção da emissora foi discriminar alguém, muito menos as mulheres, sejam elas torcedoras do Goiás ou de qualquer outro time. Pedimos desculpas por constrangimentos causados”, diz a nota.

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