Morte de Marielle: comentários na web revelam o pior de nossa sociedade

Por Rodrigo Ratier em UOL

 

– Merecia morrer.

– Vereadora duranga.

– Não será de mim que essa gente terá solidariedade

– Só mais um corpo estendido no chão… por que o espanto?

– Quem pede um minuto de silêncio a bandidos mortos merece fazer companhia a eles.

– Colheu o que plantou.

– Um lixo comunista a menos.

– Temos que torcer para mais políticos serem trucidados para ver se mudam as leis.

Marielle Franco – feminista, negra, mãe e cria da favela da Maré, como ela se definia – foi assassinada na noite de quarta, 14 de março. Morta a tiros, numa ação que também vitimou o motorista Anderson Gomes. Um crime chocante. Exceto para os autores das frases que abrem este post, pinçadas de portais e sites noticiosos com base numa ronda não muito exaustiva. Comentários de ódio que, se não representam a opinião geral (torço para que não representem), também não são ponto fora da curva.

Há algo de muito errado numa sociedade em que esse tipo de discurso não é uma bizarra exceção. As explicações são conhecidas. Existe, sim, um quadro exacerbado de polarização política. A internet pode ser, sim, mais estridente do que o debate presencial. E trollsbots e perfis falsos são, sim, uma realidade. Mas nada justifica a indiferença – ou pior, a ironia, a comemoração – com a morte de quem quer que seja.

Que haja gente que pense assim não é surpresa. O que nos horroriza é a naturalidade com que essas opiniões são hoje vocalizadas. Muitos não se importam de aparecer nas caixas de comentários de cara limpa, com seus perfis reais de Facebook. Parece que as pessoas perderam um travo crítico, a capacidade humana de julgar o que é certo e o que é errado, aquele pensamento que martelava: “Hum, acho melhor não dizer isso em voz alta”.

Não só dizem como encontram eco em suas opiniões. Passam a achá-las normais e até sensatas. Avoluma-se a pesquisa sobre os efeitos dos algoritmos de redes sociais – sobretudo o chamado viés de confirmação, que aproxima pessoas que pensam de maneira semelhante e as torna progressivamente mais radicais. O tio reaça dos almoços de domingo agora está por todos os lados. Cada vez mais raivoso e cheio de certezas. Há quem diga que ele é a cara do Brasil real. Não somos cordiais e festeiros, mas violentos, conflagrados e egoístas.

Não sei se concordo. Fico pensando que passou da hora de fazer algumas perguntas:

Por que isso aconteceu?

Como isso aconteceu?

O que fazer para mudar?

Em suas reflexões sobre os horrores do nazismo, a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt examina o que chama de “banalidade do mal”. Para ela, as barbáries não se fundamentam no ódio ou na estupidez, mas na irreflexão.

Refletir é examinar os acontecimentos para dar significados a eles. É o que falta, segundo a filósofa, a muitos que cometem, aceitam atos de maldade ou se omitem diante deles. Arendt fica perplexa diante de Adolf Eichmann, oficial nazista julgado pela deportação de judeus para campos de concentração. Esperava encontrar um monstro, mas, em vez disso, quem estava no tribunal era um homem “normal”, obediente, bom pai de família. Como seria capaz de tamanhas barbaridades?

Arendt chama a atenção para outra característica do réu: sua dificuldade de expressão. Eichmann se comunicava por clichês e frases feitas, recursos que, nas palavras da filósofa, “têm função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência”.

Em resumo, Eichmann não refletia sobre a natureza e a implicação de seus atos. Num paralelo com nosso contexto, talvez a irreflexão que hoje acomete as parcelas mais extremadas da população seja o motor dos comentários de ódio que abrem o texto. Sua justificativa (de novo, recorro ao que vi nos portais) é considerar o outro um “adversário”, um “inimigo”, o “outro lado”. Um festival de clichês. Desse ponto de vista, o destino do diferente deve ser a eliminação, devidamente ironizada, comemorada.

Não deixa de ser lamentável que em pleno século 21 a gente tenha de lutar por um requisito civilizacional tão básico quanto o respeito ao luto. “É o que tem para hoje”, sou obrigado a concordar. As reações à morte de Marielle apontam que é momento de relembrar os valores morais mais fundamentais, como a solidariedade e a empatia. A reflexão é um caminho importante para frear a insensatez. Talvez o grande desafio para 2018 seja convidar o tio reaça para respirar e pensar.

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