Boicotado por Trump, o Petro, moeda digital da Venezuela, desafia sanções econômicas

Desde que as finanças internacionais se formaram como hoje, a partir do fim da Segunda Guerra, parte importante da influência dos Estados Unidos e, hoje, da União Europeia vem da capacidade de punir aqueles que saem da linha, congelando bens dos estados e de cidadãos e proibindo comércio e investimento. A lista atual de renegados inclui Rússia, Irã, Coreia do Norte, Síria e Cuba, além da própria Venezuela, todos alvos de sanções e bloqueios hoje em vigor. O Iraque foi um participante até o ditador Saddam Hussein ser derrubado, em 2003.

De acordo com um estudo da ONU, sanções econômicas no país foram responsáveis pela mortes de até 576 mil crianças. Questionado sobre esse fato, a então-Secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, disse: “Acredito que é uma decisão muito difícil, mas o preço — acreditamos que vale a pena”. (Mais tarde, ela afirmou ter se arrependido da declaração).

Por Alexandre Rodrigues em Intercept.

Para a internet, soou como piada quando Nicolás Maduro, o presidente da Venezuela, anunciou três meses atrás que a Venezuela estava criando a própria moeda digital, o Petro. A medida, divulgada durante seu programa dominical (sim, ele tem um show de cinco horas), pode ter rendido ironias infinitas, mas alguém não achou graça: Donald Trump.

No dia 20, três dias antes do começo das negociações do Petro, o presidente dos Estados Unidos atacou a criptomoeda, proibindo cidadãos americanos de comprá-la. A ordem executiva, assinada pelo próprio Trump em vez do secretário de Tesouro, como habitual, é um recado claro: ele não vai permitir que Maduro contorne as sanções impostas no ano passado à economia venezuelana. “Se a tentativa da Venezuela é nova, não tem nada de novo sobre as restrições a países”, disse Jerry Brito, do Coin Center, um think tank americano.

O objetivo é, claro, debilitar o governo da Venezuela.

O objetivo é, claro, debilitar o governo da Venezuela. Mas o que está por trás desta guerra é muito maior do que a disputa com Maduro: Trump quer impedir que as moedas digitais ou criptomoedas enfraqueçam a política de aplicar sanções econômicas contra outros países.

Desde que as finanças internacionais se formaram como hoje, a partir do fim da Segunda Guerra, parte importante da influência dos Estados Unidos e, hoje, da União Europeia vem da capacidade de punir aqueles que saem da linha, congelando bens dos estados e de cidadãos e proibindo comércio e investimento. A lista atual de renegados inclui Rússia, Irã, Coreia do Norte, Síria e Cuba, além da própria Venezuela, todos alvos de sanções e bloqueios hoje em vigor. O Iraque foi um participante até o ditador Saddam Hussein ser derrubado, em 2003.

De acordo com um estudo da ONU, sanções econômicas no país foram responsáveis pela mortes de até 576 mil crianças. Questionado sobre esse fato, a então-Secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, disse: “Acredito que é uma decisão muito difícil, mas o preço — acreditamos que vale a pena”. (Mais tarde, ela afirmou ter se arrependido da declaração.)

A eficácia sempre foi dúbia, vide os paraísos fiscais, o contrabando que corre solto nas fronteiras destes mesmos países e a natureza econômica de regimes autoritárias. E, no fim, pouco ajuda a derrubar ditadores – Bashar al-Assad, da Síria, manda lembranças. Mas funciona que é uma beleza para arruinar economias.

Há três anos, estive no Irã, sob sanções americanas desde a revolução islâmica de 1979. Boa parte da infraestrutura do país data desta época. A elite corrupta, ligada ao regime e ao petróleo, vive refugiada no norte de Teerã, onde, ao pé de resorts visitados por milionários russos e árabes, as ruas imitam o estilo das capitais europeias, os prédios são luxuosos como alguns do Oriente Médio e não faltam nem as lojas da Adidas ou da Apple – vendendo produtos importados de Dubai ou da Turquia. Os aiatolás? Continuam inabaláveis no poder.

Já no centro e no sul da cidade, sobram prédios em ruínas, a violência é sem controle, e a população sofre os efeitos do bloqueio, sem empregos ou consumo, e é controlada com mão de ferro. O sistema financeiro vive no caos. Não há sequer cartão de crédito: tudo tem que ser pago com quantidades impressionantes de cédulas – tente se imaginar carregando 8 milhões de riais, a moeda local, pela diária de hotel.

E aí que entram as criptomoedas e a cartada de Maduro.

Corrida do ouro

Pegando o caso mais famoso, se você não viveu fora do planeta nos últimos seis meses, deve saber que o Bitcoin subiu 2.000% desde o começo de 2017 e já caiu 30% este ano. Outras, como o Etherium, também entraram na carteira de fundos e pessoas físicas, não faltando, como em toda corrida do ouro, os casos de quem ficou rico da noite para o dia (até a Kodak quer ter uma criptomoeda hoje em dia).

“Outras nações que sofreram embargos vão acompanhar de perto o Petro, que pode criar um precedente.”

As criptomoedas crescem porque prometem um futuro sem taxas bancárias ou impostos cobrados pela transferência de dinheiro. O valor vai direto do comprador para o vendedor, fora do controle do sistema bancário e, supostamente, com total anonimato – não é bem assim. Uma plataforma de segurança, blockchain, valida os negócios, garantindo que uma moeda não possa ser vendida mais de uma vez. Nunca foi fraudada, pelo que se sabe.

 

Algumas startups hoje usam Bitcoins e outras moedas digitais para se financiar em vez de procurar um fundo de investimento. É dinheiro mais barato, ousado e com menos exigências. A Venezuela está elevando a ideia ao nível geopolítico. “Outras nações que sofreram embargos vão acompanhar de perto o Petro, que pode criar um precedente”, diz Matthew Newton, analista da plataforma financeira eToro.

Não à toa, a Rússia de Vladimir Putin também estuda uma versão digital do Rublo, o Criptorublo, também para circunavegar as sanções internacionais. Nas últimas semanas foi ventilado que Moscou estaria por trás da criação do Petro. Um indício seria a presença, no lançamento da criptomoeda venezuelana, de dois conselheiros russos, Denis Druzhkov e Fyodor Bogorodsky, ambos com laços com o Kremlin e com bilionários próximos. Maduro agradeceu aos dois na cerimônia pela ajuda em lutar contra o “imperialismo americano”. Putin, reeleito em março, também teve um encontro com Vitalik Buterin, o criador do Etherium, o que demonstra seu interesse em criptomoedas.

Na prática, a Venezuela vendeu reservas futuras de petróleo em troca de dinheiro imediato. Ao lançar oficialmente o Petro, no dia 23, Maduro anunciou que compradores de 133 países reservaram a moeda, pagando 5,25 bilhões de dólares, durante os 30 dias em que o Petro esteve em pré-venda – números conflitantes com o anúncio do próprio governo venezuelano, em fevereiro, de que seria negociado apenas um lote equivalente a 2,3 bilhões de dólares. Também já há planos para moedas com base nas reservas de ouro do país.

“Estamos apenas começando”, disse o presidente venezuelano.

A vantagem para alguém entrar nessa? O Petro tem um lastro, valendo o mesmo que um barril de petróleo venezuelano no dia anterior. Isso garante (em teoria) que a moeda, ao contrário do Bitcoin, do Etherium e das demais, sempre terá algum valor, nunca indo a zero. E, numa futura Venezuela democrática, o Petro pode vir a realmente valer muito dinheiro. Fosse um país mais estável lançando a moeda, haveria gente se estapeando pelo primeiro lote.

Uma esperança venezuelana

A criptomoeda também lançou luz sobre uma nova figura do chavismo: Carlos Vargas, um economista ainda jovem nomeado superintendente da criptomoeda. Ex-opositor de Hugo Chávez, ele foi um dos deputados que abandonaram o candidato de oposição, Henrique Caprilles, passando para o lado do governo na primeira eleição de Maduro, em 2013. Agora é Vargas que fala pelo presidente quando o assunto é a nova moeda. “Num futuro próximo, os venezuelanos vão conseguir pagar em Petro na padaria”.

Venezuelanos se voltaram para moedas digitais nos últimos anos para proteger suas economias ou fazer compras na internet. Não por acaso: a inflação já passa de 2.000% ao ano, e o Bolívar, a moeda venezuelana, vale tão pouco que o governo não tem mais controle sobre o dinheiro no país – Elorza, uma cidade perto da fronteira com a Colômbia, resolveu imprimir sua própria moeda. Mesmo sendo o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, o salário médio venezuelano é de menos de 15 reais.

Vai dar certo? Ao menos em público, o governo comemora, e o próprio Maduro citou compradores de 133 países, incluindo Catar, Turquia, União Europeia e até Estados Unidos, entre os interessados. Mas a proibição imposta por Trump, a quem Maduro já comparou a Hitler, é um golpe. “Dizer que arrecadaram 5 bilhões de dólares na pré-venda é totalmente impossível e uma declaração ridícula”, critica Charlie Shrem, economista social e um dos fundadores da Fundação Bitcoin. “Por que? Porque a maior das pré-vendas de criptomoedas levantou no máximo algumas dezenas de milhões de dólares”.

A posição americana hoje é muito mais dura do que era com Barack Obama. Cogita-se que os Estados Unidos, seu principal cliente, vão deixar de comprar o petróleo da Venezuela, asfixiando sua economia. Se acontecer, vai ser o golpe de morte na agonizante indústria do petróleo venezuelana. “Isso aprofunda a crise que estamos vivendo. O Petro é outro (exemplo) de corrupção”, disse Rafael Guzmán, deputado de oposição que faz parte da comissão de finanças da Assembleia Nacional venezuelana.

 

Imagem do topo: Miraflores Palace/Reuters

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