O erotismo no caso Lula

A presença irrefreada dos desejos na política é, por igual, capaz de justificar não só a euforia com caso Lula, mas de compreender o porquê de manifestações violentas entrarem em cena rapidamente assim que duas pessoas com convicções divergentes neste campo comecem a discutir, e o quanto isto se agrava quando é colocado em discussão eventos atinentes afiguras como a de Lula, ou, também, de Bolsonaro. Tão logo sejam estes nomes pronunciados, entra em cena o desejo; e o desejo, enquanto tal, não conhece os limites da razão.

Por Alexandre Ginzel em Justificando.

Passa em julgado o mal-estar causado aos olhos do leitor brasileiro ao ver as palavras “erotismo” e “Lula”, ainda mais quando articuladas em uma mesma frase. Em respeito a este mal-estar, um primeiro esclarecimento sobre o que pretende-se significar por erotismo é necessário, antes de associá-lo aos eventos recentes do ex-presidente.

Eros, figura mitológica grega atribuída ao amor e ao desejo, tem sua natureza definida por Platão, através do lendário Sócrates, em um de seus diálogos, intitulado “O Banquete”.

Antes de conceituá-la, Platão põe na fala de suas personagens uma série de elogios e situações em que Eros se apresenta como um Deus de maior importância na vida terrena, desde sua necessidade para a virtude e a felicidade na vida, como descreve Fedro, até o gracioso mito do Andrógino, cuja insolência contra o Olimpo condenou os humanos a vagarem em busca de sua “cara metade” para sentirem-se completos novamente, como relata Aristófanes.

Entretanto, como habitual em seus diálogos, é Sócrates e sua maiêutica que desconstroem toda a argumentação dos interlocutores e o define como: Um demônio, intermediário entre um mortal e um imortal, sempre referenciado ao desejo de alguma coisa e intimamente ligado ao saber. Eis então o primeiro alerta sobre o perigo de Eros.

Séculos após a escritura desta obra, variadas teorias do campo da filosofia e da psicanálise buscaram desenvolver esta noção primeira de Eros em conformidade com a consciência espiritual moderna, antropocentrista e predominantemente anti-metafísica. Nesta linha, a noção de Eros como afeto da alma, ou por melhor dizer, psiqué humana, penetrou com profundidade nas análises políticas, sociológicas e jurídicas contemporâneas.

Digno de nota, com isto, é a definição a respeito compreensão desta noção de afeto, que designa não apenas um sentimento, mas, em palavras pouco técnicas, como uma pulsão que ocorre de forma independente do uso das faculdades racionais, as quais podem ou não estar presentes em forma de discurso motivador da (re)ação derivada do afeto.

Neste jogo entre pulsão e sentimento relacionados à política, vale dizer que a ideia não é em si nova, constando não só por associação com o título do diálogo platônico já mencionado, como de forma direta em obras medievais, como a Divina Comédia de Dante, em que é possível identificar referências deste cunho quando do encontro glutão Ciacco, que relaciona diretamente a dimensão política dos sentimentos com o apetite imoderado.

Embora mereçam ser destacados diversos autores modernos que buscaram esta correlação, julgamos estar suficientemente justificada a ideia entre a dinâmica dos desejos e sua dimensão política.

O caso em si

Quanto à Lula, começo com uma indagação: por que o julgamento do ex-presidente desperta, independentemente da ideologia política, tanta euforia, enquanto o de outros agentes políticos – até mesmo o do presidente em exercício – parece sempre ser acompanhado de uma estranha serenidade pelo povo?

Esta questão, por sua vez, é recorrentemente levantada pela esquerda e quase sempre ignorada pela direita. Nenhuma análise de ordem econômica, sociológica ou jurídica parece ser satisfatória ou adequada para este questionamento em especial.

Assim resta-nos a seguinte proposição: Lula é erótico. Seu erotismo, porém, tem suas raízes mais na tradição da República brasileira do que em sua aparência e traços característicos.

Ao consultarmos o passado, quantos foram os pretensos líderes messiânicos que o Brasil já teve como chefes de Governo? de Dom Pedro II até o próprio Lula, a lista é longa e parece ainda distante de chegar a um fim – basta ver, no panorama atual, a crescente popularidade de Jair Bolsonaro.

A própria história da cidadania brasileira, como se vê, é marcada por um verdadeiro fetichismo messiânico, já que não há, de forma alguma, dados capazes de justificar essa preferência.

Afinal, se há, como postulamos, um afeto, se há um desejo por líderes messiânicos, cumpre-nos descrever a natureza deste desejo: é o desejo pela unidade.

Sim, tal qual o Andrógino partido ao meio que vaga em busca de seu complemento, o cidadão brasileiro busca incessantemente a unidade política, não sobrando, porém, em meio a esta unidade, espaço para a pluralidade de interesses e convicções. Este desejo, típico de uma democracia jovem e marcada pela desigualdade, não difere em essência da criança que ainda não superou seu Édipo e busca incessantemente atingir a unidade da consciência consigo mesma.

Regressemos, pois, à natureza erótica de Lula: não foi ele quem melhor encarnou a representação do humilde trabalhador que chega ao poder?

Não é ele quem entoa apaixonadamente discursos pela igualdade econômica? a resposta afirmativa é imperativa – sem, é claro, adentrarmos na materialização destas – e suas consequências, em face da narrativa mencionada, evidentes: o brasileiro, na dimensão do exercício da cidadania, é regido puramente pelo desejo.

Lula, por sua vez, encarna,propositalmente ou não, um arquétipo que apenas incendeia este desejo. Muitos, porém, são os perigos desta conduta pautada pela dinâmica dos desejos. Não é preciso mais do que uma rápida consulta às páginas sangrentas da história para que estes sejam devidamente identificados.

A superação desta fase dos desejos deve começar com um primeiro entendimento sobre a situação, objetivando que os discursos políticos não sejam revestidos pela racionalidade somente em forma, mas em essência.

A presença irrefreada dos desejos na política é, por igual, capaz de justificar não só a euforia com caso Lula, mas de compreender o porquê de manifestações violentas entrarem em cena rapidamente assim que duas pessoas com convicções divergentes neste campo comecem a discutir, e o quanto isto se agrava quando é colocado em discussão eventos atinentes afiguras como a de Lula, ou, também, de Bolsonaro. Tão logo sejam estes nomes pronunciados, entra em cena o desejo; e o desejo, enquanto tal, não conhece os limites da razão.

Para um efetivo exercício da cidadania e progresso em direção à realização dado bem comum, é preciso regressar aos primeiros ensinamentos de Platão e tomar verdadeiro cuidado com a intensidade do Eros que se instala atualmente na política brasileira, intensidade que se vê dobrada quando um salvador carismático atinge à mídia.

Conselho desta mesma natureza sobre o Eros também nos foi deixado por Carl Jung: Onde o amor acaba, começa o poder, a violência e o terror.

Alexandre Ginzel é Advogado, Bacharel em Direito pela PUC-SP.

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