O pós-Lula

Por Giselle Bertaggia e Daniel Sant’ Ana

Lula foi preso. Muitos se perguntam: e agora? Até mesmo aqueles que tanto ansiavam por isso. A esquerda reformista e conciliatória talvez ainda esteja apostando na sua candidatura, pois, apesar de tudo que estamos vendo no sentido da politização das Instituições, acreditam que Lula ainda tem uma chance através dos processos e recursos à disposição. Inclusive creem na apelação para órgãos internacionais.

Como Lula mesmo disse em seu discurso no sindicato dos metalúrgicos: “Lula é uma ideia”. Sim, o lulismo é e foi uma ideia, mas uma ideia inacabada, fundada na crença de um pacto institucional, uma pax brasiliana que permitiria ganhos para todos. Era uma falsa sensação de segurança, um apego a um republicanismo de fachada e ingênuo até certo ponto. Atropelado que foi pela realidade da estrutura de poder e da sociedade que temos, o lulismo sobrevivia ainda na figura carismática de seu líder, nas políticas compensatórias apoiando um capitalismo periférico e nas alianças um tanto quanto duvidosas com políticos e com o Mercado. Esse que se vê desconstruído ou em desconstrução nas imagens em alta definição de sua prisão. Uma má notícia para todos.

Mas a má notícia não é só a prisão de Lula – bom, talvez para alguns setores da esquerda radical tenha sido uma boa notícia, mesmo que custe acreditar que eles tenham comemorado a prisão do Lula com a direita, mesmo tendo outros motivos –, a outra má notícia é que eles têm que continuar. Prender Lula não basta, eles têm que garantir um vencedor no pleito de outubro. E se houver um respiro mais forte de algum candidato de esquerda, talvez ungido pelo próprio preso, sabe-se lá se haverá eleição (ou que outros subterfúgios podem ser usados para tirar mais um do páreo).

Mas porque a prisão do Lula é uma má notícia também para nós, que sempre criticamos o lulismo? Ou para a esquerda em geral? A resposta não está na sua prisão, mas no modo com isso foi feito. Não houve pudores na maneira escancarada como o caso foi tratado. Não há mais hoje nem a preocupação em se dar um verniz democrático ou institucional. Todas as instituições foram manietadas de forma aberta e despudorada. A população foi sendo preparada, dessensibilizada aos poucos para os atos finais dessa jogada. As exceções, normatizadas. O arbítrio, naturalizado.

Desde às chamadas Jornadas de Julho de 2013, grupos como MBL e Vem pra Rua, a grande mídia e as redes sociais vêm preparando os ânimos, num desserviço social completo. Foi criado o monstro da corrupção, com cara nome e endereço. Este nome foi atacado dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, com cobertura 24 horas, 7 dias da semana. Afinal, quem seria a favor da corrupção? A partir desse momento é construído um discurso legitimado com frases prontas repetidas diversas e diversas vezes, simplificando a situação do país e suas desgraças em um só ponto: o Partido dos Trabalhadores é uma organização criminosa, cujo chefe comandava a corrupção em todos os níveis dentro do Estado brasileiro. Corrupção, esta, que é o maior mal do país, herança maldita vinda dos portugueses, que deve ser então não apenas controlada, mas “erradicada”, numa guerra entre os “homens de bem” contra o mal, encarnado e redivivo na figura do inimigo público número um: Lula.

Entretanto desta vez não era apenas uma corrupção comum, dizem eles. Na verdade, a corrupção era apenas uma maneira de conseguir dinheiro, não para usufruto próprio (apesar que um pouco para tornar a vida mais fácil poderia ser até permitido), mas para um projeto de poder com tendências autoritárias e comunistas. Faria ele parte de um complô mundial de esquerda, com doutrinação ideológica Gramsciana imbricada nos cursos de humanas das Universidades e visando preparar o Brasil para se tornar uma Venezuela.

Com toda essa confusão semântica conseguiram vincular o PT e Lula, junto com a corrupção, ao comunismo, ao bolivarianismo, ao socialismo e até a Karl Marx (que deve estar se revirando no túmulo há tempos). Ora, se o chefe de toda a corrupção, que acabou com esse país, precisa ser odiado, todos esses outros ideais também precisam. Numa tacada só se elimina os movimentos contrários ao capitalismo, ao escravagismo, ao racismo, à desigualdade, à acumulação. Um discurso que interessa aos grupos financiados principalmente pelos EUA e suas megacorporações, e ao capital financeiro mundial. A mídia e esses grupos sempre agiram para criminalizar a esquerda. Lula foi apenas o inimigo da hora eleito para conter toda essa semiótica anti-esquerdista.

E de repente estamos repetindo a história. Edmund Burke disse certa feita que “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”, secundado depois por Gramsci: “A história ensina, mas não tem alunos”. Em outras palavras, o que aconteceu com Lula, já aconteceu antes. Getúlio, Jango, Juscelino. Todos foram acossados, justiçados, presos, exilados, despostos. Eram corruptos, eram “comunistas” e para tanto, inimigos eleitos em sua época. Todos encerravam forças populares. Todos, cada um em sua vez, balançaram as estruturas arcaicas de um Brasil também arcaico. Todos eram de origem burguesa, mas tinham ideais estranhos aos conservadores e seus interesses econômicos. Todos demonizados e derrubados em campanhas despudoradas que naturalizavam arbítrios. Nessa cruzada tudo também era permitido: a quebra da institucionalidade, o sacrifício da democracia.

Hoje, os anticomunistas (ou contrários a qualquer ideal esquerdista) utilizam as redes sociais e através de fake news disseminam algumas poucas frases associando Lula aos ideais da esquerda, seja ela qual for. Então, por transitividade, se o Lula é o maior corrupto de todos os tempos no Brasil, chefe de organização criminosa que quebrou o país através da corrupção, toda a esquerda também o é, numa propaganda massificada que embaralha ideias de uma maneira totalmente criminosa e simplista.

mbl
Propaganda do MBL sobre Lula e um ideal que ele nunca defendeu (fake news)

E o resultado dessa guerra semiótica por corações e mentes está aí: ataques da mídia a lideranças, ataques físicos a pessoas de esquerda nos protestos, brutalidade da polícia, intervenção militar, assassinato de defensores dos direitos humanos (como o caso da vereadora do PSOL Marielle Franco), fake news para grande massa que se informa por rede social e não se preza a ler mais que as linhas de um meme.

Isso nos faz fazer uma pergunta muito importante: mas é só o Lula?

Lógico que não. A guinada neoliberal mundial com suas políticas de austeridade tem necessidade de enfraquecer os movimentos contrários a tudo isso.

A campanha #lulalivre pode ser importante para denunciar tudo isso, mas será que a luta correta não seria #esquerdalivre? É claro que as pessoas, principalmente a massa de manobra da classe média, sofrerão mesmo não tendo uma ideia de esquerda na cabeça. Mas o ataque real contra as lideranças e movimentos sociais é nítida. A massa (não no sentido pejorativo) ainda não consegue associar de onde os ataques vêm, pois a mesma foi moldada através dos jargões simplistas da Rede Globo e seus semelhantes. Apesar desses jargões simplistas para fazer com que a intelectualidade da massa (da massa, não do indivíduo que compõe a massa) seja cada vez mais baixa, milhões de reais tem sido gastos para tal movimento. Se não fosse importante, não teriam gasto tanto, vamos combinar. Vide publicidade do Vem Pra Rua na Folha de São Paulo que ocupou uma página inteira na Folha de São Paulo e outros veículos de comunicação:

VemPraRua
Publicidade na Folha bancada por quem?

A questão de Lula é um simbolismo, é um recado, além de tudo que ela representa. Em meio a tantas contrarreformas impostas, a fome, a desigualdade, é claro que o povo tem que ser adestrado e silenciado. É claro que as lideranças da esquerda têm que ser minadas. É claro que a mídia alternativa há de ser silenciada. Precisamos de uma nova ditadura militar? Claro que não. As próprias instituições agora têm carta branca para julgar e prender sem provas; as pessoas insufladas podem bater numa pessoa com camiseta do Che Guevara com direito a telespectadores policiais; vereadores que cuidam de comissões de direitos humanos podem ser executados e ainda serem culpados pela própria morte, apenas para dar alguns poucos exemplos.

A questão da corrupção não será resolvida. Está longe de ser resolvida, aliás, pois é inerente ao sistema capitalista, faz parte dele. E os problemas sociais continuarão e se aprofundarão. Com a esquerda desmoralizada e seus ideais resumidos a um post do MBL, que saída a massa desintelectualizada buscará? Alternativas extremas, afinal, todos estão com ódio, seja lá o lado que estiver. Com Bolsonaro em segundo nas pesquisas de intenção de voto atrás de Lula, dá para imaginar.

Quais caminhos temos agora tendo em vista as falácias que se propagam dia a dia sobre a esquerda progressista? Sabíamos que Lula não era e não é, nem de longe, a solução, pois já tivemos a experiência de governar ao lado da burguesia e dos bancos. Sua luta política contra uma condenação injusta é válida, mas está longe de ser a tábua de salvação em termos práticos: como reverter todo o desmonte e retrocessos não dispondo das armas financeiras e fake news sem escrúpulos de uma direita empolgada pela sua ascensão sem precedentes?

Para termos uma ideia, a direita conta com o apoio de um grupo de grandes empresários, o Brasil 200 (https://www.brasil200.com.br/): Habib’s, Raia Drogasil, Smart Fit, Hemmer, Riachuelo, Polishop, Marisol, Havan, ALE Combustíveis, Multilaser, empresas do Roberto Justus, Óticas Carol, Centauro, entre outros (muitos desses grupos fustigaram a população a favor do Impeachment/golpe em Dilma Rousseff, além de termos ciência de que deputados foram comprados para votar pela sua deposição. Mais uma vez, quem pagou essa fatura? Isso não seria corrupção em sua acepção primordial?). Além disso, o MBL conta com o apoio e financiamento de grupos ligados a think tanks americanos. Dessa maneira, podemos ver que a guinada da direita não aconteceu porque seus ideais são os melhores e mais justos e sim porque eles conseguem manipular as massas através de grupos que ficam, incessantemente, produzindo conteúdo contra a esquerda e o PT, além de promover atos com chamadas em grandes jornais, como os vistos acima. Esses empresários estão, obviamente, ligados a partidos e políticos. E evidentemente, muito dinheiro é necessário para manter essa superestrutura (estamos falando em milhões de reais). Cui prodest? Follow the money e você encontrará os mesmos corruptores.

Acreditamos que o momento é de reflexão e atualização das estratégias, já que a direita conservadora neoliberal está bastante ativa e conta com um financiamento que a esquerda combativa não dispõe. Acho que aqui chegamos no ponto. Que fazer se eles detêm a grande mídia, tem financiamento de grandes empresas e se o interesse dos EUA aqui dentro é totalmente estratégico para a conjuntura mundial que vem se desenhando? A esquerda precisa se reinventar para vencer tudo isso. Precisamos esclarecer a população, fazer o trabalho de base que o PT não fez quando estava no poder e lutar por uma mídia democrática. Não temos alternativa a não ser juntar as massas indignadas e esclarecê-las, pois a ficha da classe média ainda vai demorar para cair.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: